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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Diplomado ou não, querem acabar com a profissão de jornalista



O parecer “técnico” jurídico do STF, na verdade, responde a interesses de uma classe social. Dos proprietários de algumas corporações midiáticas. São estes que questionaram, juridicamente, um mecanismo que exigia a formação acadêmica específica do jornalista. Na verdade queriam para si a prerrogativa de validar quem teria competência para ser seus jornalistas ou não.

A Editora Abril e o Jornal Folha de São Paulo já disponibilizam, em suas instalações, alguns cursos na área de jornalismo. E que “formam futuros jornalistas” em apenas seis meses. Oferecendo não apenas o “curso”, mas a experiência de se “aprender” fazendo jornalismo em algumas de suas editorias de seus veículos. Que, diga-se de passagem, conceituados no “mercado midiático”. O fato é que, apesar da contestação no STF, dos interesses serem outros e não a qualidade da formação do jornalista, uma grande quantidade de estudantes e recém formados sentiram-se expropriados num direito que acreditavam ser perpétuo. Hoje tentam vislumbrar uma formação acadêmica que possa fazer a diferença na hora da contratação para ser um jornalista reconhecido.

Desprezando o glamour que a profissão traz, ser jornalista hoje é fazer parte de um sistema que não colabora para o verdadeiro sentido do jornalismo. A mercantilização da notícia desfigurou o conceito do jornalismo na sociedade capitalista. Quem se preocupa com o lucro em primeiro lugar, não é uma instituição jornalística. Não pode ser. A fronteira ética entre ter amarrado sua pauta jornalística aos interesses comerciais e políticos da empresa é muito tênue. Ser uma corporação midiática hoje é tentar-se travestir de uma instituição jornalística com isenção. O que não é verdade. É como vemos uma grande parte dos empresários midiáticos tentando salvar seus negócios. A crise que a imprensa mundial passa por hoje não é só econômica, mas de credibilidade. Em especial no Brasil. Focados em seus interesses egoístas, próprio de um sistema que só nos faz pensar e agir assim, os grandes senhores do setor de mídia não conseguem se adaptar aos novos tempos. À agilidade e à interatividade que a internet está trazendo.

Além do envelhecimento dos leitores, da estratégia equivocada de disponibilizar seus conteúdos de graça, a grande mídia encontra um universo tão grande de pessoas e instituições querendo fazer aquilo que elas abandonaram (jornalismo), que está difícil voltar a fazer o que jamais deveriam ter abandonado. E não é fragilizando a categoria dos jornalistas, precarizando suas condições de trabalho ou a forma de contratação, que conseguirão resgatar um dos princípios básicos do jornalismo que é o de fazer desta profissão uma missão social. Combater todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando a ética, a verdade e os seres humanos em sua singularidade e na sua luta por dignidade.

O jornalismo sempre irá existir, mas que nome se dará aquela profissão que, a exemplo de hoje, historicamente, vem abandonando suas técnicas de apurar, entrevistar, redigir as luzes da ética e da imparcialidade?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Agora jornalismo é para quem quiser, graças a Deus


Por Marcos Zibordi pela Caros Amigos

Ok, sou mais um a escrever sobre o fim da exigência do diploma para jornalistas. Relutei em fazer este artigo, mas a indignação dos profissionais me toca. Estão putíssimos, é fato. Meus alunos, preocupados. Eu adorei. Agora, jornalismo é para quem quer fazer jornalismo, não para quem teve a chance econômica de adquirir o diploma que permite exercer a profissão.

Sem dúvida, as razões de Gilmar Mendes e seus pares são equivocadas – eles pensam que o jornalismo não pode prejudicar a sociedade, opinião realmente inacreditável. Contudo, assusto igualmente com os argumentos dos jornalistas, especialmente um: o diploma garante, no mínimo subsidia, a qualidade do exercício profissional. Será preciso lembrar quantos casos para demonstrar o contrário? Escola Base? A edição do debate Lula-Collor? A sanha de abutres na morte de Isabella Nardoni? Ou o assassinato de “garota Eloá”, promovido por diplomados?

Aliás, menos: é só ler jornais, revistas; acompanhar rádio e televisão; ler os famigerados releases das assessorias de imprensa. Em geral, o jornalismo praticado no Brasil é tecnicamente medíocre, a repetição de si mesmo, quem viu um viu todos. Não falo de ética, compromisso social, não sonho tanto. Penso na proclamação do textozinho padrão, o verbo “disse” após a citação, a malandragem da isenção, da imparcialidade, a incapacidade narrativa, a capacidade de aliciar sem ser sexy. O jornalismo brasileiro ainda não decidiu se pronuncia “risco de vida” ou “risco de morte” e chama o PCC de “quadrilha que age dentro e fora dos presídios”, evidenciando-os com a expressão pomposa que pretendia ocultá-los.

Os jornalistas também esperneiam pela possibilidade de perderem conquistas históricas. Ora, por séculos existimos sem diploma, coisa que imperou no Brasil por somente 40 anos. Não estou negando os nacos arrancados a duras penas das montanhas de dinheiro desse bando de Tio Patinhas, empresários da comunicação. Porém grandes conquistas dos trabalhadores em jornalismo são anteriores à ditadura e à exigência do diploma, tipo a instituição do primeiro piso salarial e da jornada de cinco horas, resultado da greve de 1961, organizada pelo sindicato dos jornalistas de São Paulo - mas quando foi mesmo a última greve dos jornalistas, a mobilização que deu notícia?

Fico me perguntando sobre a nossa situação. Pesquisas demonstram que a profissão figura entre as mais insalubres e, após quarenta anos da “categoria organizada” no Brasil, somos explorados ao extremo, recebemos miséria, trabalhamos pra cacete.

Sabe qual o salário de um jornalista na capital paulista? O piso é de R$ 1.738,25 para quem trabalha cinco horas (duvido que exista um) em jornal ou revista. No interior, rádios e televisões pagam R$ 861,85. Imagino que vários cozinheiros ganhem melhor.

Sobre os presumíveis direitos dos jornalistas, risíveis. Inúmeras redações funcionam com legiões de diplomados “contratados” temporariamente. A Editora Abril, a maior do ramo, ajusta freelancers por exatos dois meses e 29 dias, para não caracterizar vínculo empregatício aos três meses. Surgiu “no meio jornalístico” a expressão de todo escrota: “frila-fixo”. Designa o jornalista temporário que trabalha direto e reto na mesma empresa, às vezes anos, sem nenhum direito.

Para os que defendem seus canudos, duas perguntas: por que vocês aceitaram e aceitam ter aulas, talvez a maioria delas, com professores que não são nem nunca foram jornalistas, inclusive em disciplinas específicas? Não seria mais, digamos assim, lógico, receber formação de gente da área, já que, como diz a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o jornalismo é “uma atividade profissional especializada, que exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética”?

Há ainda o argumento da “contratação de qualquer um” pelas empresas de comunicação. Percorri os telejornais e desde a decisão do Supremo Tribunal Federal não assisti a cena clássica, filmada do helicóptero, a fila de candidatos a emprego dobrando a esquina, hordas de bárbaros aspirantes ao jornalismo prestes a invadir as redações, suas pastinhas nervosas no sovaco, o currículo dentro.

Não haverá “invasão”, palavra que amestrados diplomados usam sempre para denegrir a legítima e última solução da gente mais explorada deste país. Amestrados: são conhecidos “no meio jornalístico” pela acrobática alcunha de “focas”. Com o fim da reserva de mercado, lo siento, os penetras com vocação e preparo, sim, concorrerão com nosotros.
Dando aulas em cursinhos populares, inclusive dentro da Universidade de São Paulo (USP), cansei de ouvir lamentações de jovens pobres que sonhavam um dia ser jornalistas, mas não podiam, não poderiam nunca concorrer à vaga na universidade pública, nem financiar a particular. Treta, né? Quanto vale um sonho impedido?

Por fim, relaxem, os cursos de jornalismo sobreviverão, e nem sei se precisarão justificar sua existência. Em geral eles prestam enorme serviço aos patrões formatando o futuro profissional, aulinhas de lide durante meses, exercícios práticos que achatam a criatividade, a sagacidade, o tesão dos alunos com asneiras do tipo “não use adjetivo”, “seja objetivo”, “seja imparcial”. Não duvido nada que permaneçam as picaretagens típicas de sala de aula, aqueles mestres que vivem de um difuso, duvidoso e remoto passado profissional, ou os chatos capazes de criar esta impossibilidade ambiental: o clima de marasmo tenso.

Continuidades à parte, torço agora pelo próximo passo evolutivo: a extinção da obrigatoriedade do diploma de Direito. É praticamente impossível, eu sei, inclusive a Ordem dos Advogados do Brasil apóia a exigência para jornalismo, imagina se mexerão no deles. Mas não custa nada sonhar com o dia em que velhinhos não precisarão mais recorrer a um advogado para pedir revisão de aposentadoria, por exemplo.

Marcos Zibordi é jornalista.

As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.