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quinta-feira, 5 de junho de 2008

I Forum de Mídia Livre: inscrições abertas


Nos próximo dias 14 e 15 de junho de 2008 na UFRJ, campus da Praia Vermelha, em Botafogo no Rio de Janeiro, a sociedade organizada e as pessoas que lutam ou anseiam por uma mídia livre de manipulações estarão se reunindo para fazer valer seus interesses. É um forum de discussão onde será discutido; "...o avanço do movimento de comunicação da mídia livre em todo o País, de maneira que seja obtida a garantia junto ao poder público de espaços para os veículos da mídia livre nas TVs e nas rádios públicas, a regulação da distribuição das verbas publicitárias públicas em nosso País e o avanço das microestruturas globais mediáticas, assimétricas, improvisadas, parcialmente caóticas e autônomas, como as redes digitais, as migrações, os coletivos e as ocupações urbanas, bem como de agregadores da diversidade da mídia e dos que a fazem."

Certamente é um passo importante para aqueles que não se conformam com a realidade que estamos vivendo. Principalmente por estar ocorrendo em "tempos democráticos", se é que podemos afirmar isso, né?!

Maiores detalhes no texto abaixo ou no link para inscrições.

Participe!

Estão abertas as inscrições para o I Fórum de Mídia Livre, que ocorrerá no Rio de Janeiro, dias 14 e 15 de junho, e reunirá participantes de todo o País. O evento é parte de uma ampla mobilização de jornalistas, acadêmicos, estudantes e ativistas e demais interessados pela democratização da comunicação, em defesa da diversidade informativa, do trabalho de colaboração nos novos meios e sua expansão, bem como da garantia de amplo direito à comunicação.


Programação e local

Faça sua inscrição clicando aqui

Mais informações sobre o evento;

Portal Vermelho

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Notícias sobre o ataque às FARCs: cronologia de mentiras


O jornalista Pascual Serrano faz uma cronologia num texto no Portal de notícias Carta Maior a respeito do episódio do ataque do Exército colombiano às FARCs no Equador. Vê-se no texto a quantidade de mentiras e os interesses que há por trás das divulgações das mesmas. Se proceder essas informações, o que não duvido, é mais uma prova de como estamos sujeitos a ser enganados de maneira seqüencial, já que além da precária qualidade do jornalismo atual, em ficar utilizando o Ctrl-C + Ctrl-V (copiar e colar) para reproduzir notícias que não correspondem com a verdade (barriga no jargão jornalístico), os interesses econômicos e políticos tem prevalecido acima da verdade. Jogando no lixo o manual do jornalismo sério e comprometido com a verdade.

Interessante dizer também que o computador do líder das FARCs Raul Reyes está sendo utilizado politicamente já algum tempo. Sempre atendendo os interesses daqueles que estão com sua posse. É possível perceber no texto que a INTERPOL, ao fazer um relatório a respeito do computador não entra no mérito do que há em seu interior, oque a imprensa colombiana e americana "se esquecem" citar e divulgam mentiras conforme seus interesses.
Acompanhem no texto abaixo as reflexões que desnudam as mentiras propaladas na época do episódio em questão;


Como transformar Chávez em um terrorista em dois meses

O bombardeio de um acampamento das FARC no Equador, por parte da Colômbia, iniciou uma autêntica guerra midiática. Qualquer semelhança entre a versão da grande mídia e a realidade é mero acaso. Saiba como operou o eixo midiático formado pelos jornais The Wall Street Journal (EUA), El Tiempo (Colômbia) e El País (Espanha).

Primeiro disseram que era ditador, mas não convenceram ninguém, por ser ele o presidente americano que mais eleições ganhou. Depois propagaram que ele estava se armando até os dentes e era um perigo para a estabilidade da região, mas a verdade é que Chávez nunca utilizou uma única arma fora de seu país. Ou seja, que o último lance é transformá-lo em terrorista, por meio de uma operação midiática de dois meses. Vamos repassar a cronologia da operação e comparemos cada acontecimento: a versão do eixo midiático (El País, El Tiempo, The Wall Street Jornal, o presidente colombiano Uribe, a Casa Branca) e a versão do que realmente aconteceu.


1º DE MARÇO DE 2008

VERSÃO DO EIXO MIDIÁTICO: O Exército colombiano ataca um acampamento das FARC em uma perseguição perto da fronteira do Equador. A notícia ocupa a primeira página da imprensa internacional.

VERSÃO REAL: O Exército colombiano bombardeou um acampamento com os representantes internacionais das FARC às três da manhã, enquanto todos dormiam. Para isso, invadiram território equatoriano adentrando dois quilômetros no país. Assassinaram, também, três estudantes mexicanos de uma delegação que estava se entrevistando com o comandante Raúl Reyes. Utilizaram tecnologia e mísseis norte-americanos e, depois, assassinaram os feridos com um tiro de misericórdia. Essa delegação guerrilheira estava no Equador para negociar com as autoridades francesas a libertação de Ingrid Betancourt. A morte de Reyes abortou essa operação. Todos estes elementos vão se tornando conhecidos posteriormente, pouco a pouco, e são incorporados somente nas páginas interiores dos jornais. Outro detalhe a ser considerado é que o jornal El Tiempo é propriedade da família Santos, e seu diretor – Enrique Santos –é irmão do ministro de Defesa – Juan Manuel Santos – e primo do vice-presidente colombiano, Francisco Santos.

9 E 10 DE MAIO DE 2008

VERSÃO DO EIXO MIDIÁTICO: No dia 9 de maio, The Wall Street Journal afirma que teve acesso a documentos procedentes do computador de Raúl Reyes, os quais confirmariam que Chávez enviou dinheiro para as FARC. A notícia é reproduzida pelo jornal El Tiempo e por todas as agências internacionais. No dia seguinte, 10 de maio, o jornal El País, da Espanha, afirma que também teve acesso aos documentos de Raúl Reyes e tem como manchete “Os papéis das FARC acusam Chávez”. Mais uma vez, o jornal El Tiempo reproduz a notícia.

15 DE MAIO DE 2008

A Interpol torna público o relatório sobre os supostos computadores de Raúl Reyes.

16 DE MAIO DE 2008

VERSÃO DO EIXO MIDIÁTICO: A imprensa norte-americana, espanhola e colombiana tem como manchete que o relatório da Interpol revela que os computadores eram das FARC e que não foram manipulados pelas autoridades colombianas. O jornal El País afirma que “segundo a agência policial, a Venezuela financiou as FARC”.

VERSÃO REAL : O relatório da Interpol não faz nenhuma referência ao conteúdo dos arquivos, uma vez que, tal e como esclarecem no início, os especialistas informáticos que fizeram a vistoria “eram provenientes de fora da região e não falavam espanhol” – eram asiáticos –, com a finalidade de “eliminar a possibilidade de que fossem influenciados pelo conteúdo dos dados que estavam analisando”. O relatório confirma que milhares de arquivos apresentam data falsa: “2.110 arquivos cujas datas de criação oscilam entre 20 de abril de 2009 e 27 de agosto de 2009; 1.434 arquivos cujas datas de última modificação variam entre 5 de abril de 2009 e 16 de outubro de 2010” e que nos três computadores os discos rígidos externos e as chaves USB foram conectados depois do ataque e antes de serem entregues aos investigadores de informática forense da polícia judiciária colombiana. A Interpol denuncia, portanto, que “o acesso aos dados contidos nas citadas provas não se ajustou aos princípios reconhecidos internacionalmente para o tratamento de provas eletrônicas por parte dos organismos encarregados da aplicação da lei”, ao ponto de que em dias posteriores ao 1º de março de 2008, ou seja, estando em mãos das autoridades colombianas, fica comprovada a “criação de 273 arquivos de sistema, a abertura de 373 arquivos de sistema e de usuário, modificação de 786 arquivos de sistema e eliminação de 488 arquivos de sistema”. Quanto à procedência desses computadores, o relatório começa esclarecendo que “a verificação realizada pela Interpol das oito provas instrumentais citadas não implica na validação da exatidão dos arquivos de usuário que elas contêm, da interpretação que qualquer país possa fazer desses arquivos, nem da sua origem”. Nesse mesmo dia é celebrada a Cúpula América Latina e Caribe-União Européia, em Lima. O assunto dos computadores das FARC e as acusações contra Chávez dominam a agenda informativa.

CONCLUSÕES

O desenvolvimento das informações difundidas mostra uma clara coordenação entre meios norte-americanos, como The Wall Street Journal, e os jornais El País e El Tiempo. É possível observar que El Tiempo começou difundindo os “vazamentos” do Governo sobre as circunstâncias do ataque, todos desmentidos posteriormente. Por isso, passaram para a estratégia de que fossem os meios amigos internacionais os que recebessem os vazamentos e difundissem os supostos conteúdos dos computadores. E foi assim que operou o eixo midiático integrado pelo tridente El Tiempo-El País-The Wall Street Journal. Ou seja, o jornal colombiano vinculado com o Governo; o espanhol, cuja empresa aspira obter a concessão de uma licença de televisão aberta na Colômbia e o jornal norte-americano que se encarregou da informação econômica mundial e que representa a ideologia conservadora estadunidense. Um maquinário bem engraxado para convencer o mundo de que Chávez é um terrorista. Afinal de contas, no Iraque deu certo acusar Sadam de manter relações com Al-Qaeda.

ASSOCIAÇÃO DE VÍTIMAS DO COMPUTADOR DE REYES : QUE NÃO FALTE O HUMOR

Que tenham aparecido computadores, discos rígidos e memórias portáteis em perfeito estado depois de um bombardeio é algo que provocou uma seqüência de comentários humorísticos na Venezuela. O escritor Roberto Hernández Montoya assinalou que “sua carcaça, de uma liga de concubinato de chumbo com pizzicato de titânio reforçado, torna-o invulnerável a mísseis de todo tipo, a bombas de fragmentação, a bombas inteligentes e a qualquer arsenal proibido por acordos internacionais. Você morre arrebentado e o computador continua como uma uva e produzindo materiais ao desejo do novo usuário”. Não falta quem tenha dito que não seria estranho que, mais adiante, algum porta-voz da Casa Branca mencione os vínculos ‘sinistros’ de Obama com as FARC —porque isso mostrariam os documentos dos computadores— após as declarações do democrata de que estaria disposto a “manter conversações diretas com os dirigentes de países como Irã, Síria, Cuba ou Venezuela”. Ainda no plano do humor, foi criada a Associação de Vítimas do Computador de Raúl Reyes, cuja primeira atividade será a convocatória para um concurso de contos: solicitaram à população que envie relatos inverossímeis, tal como os que aparecem no computador de Reyes. O mais incrível e inexato dos contos será o que levará o prêmio, que vai consistir, é claro, em um computador. Inclusive há uma paródia na televisão estatal que apresenta um computador, resgatado dos restos do Titanic no fundo do Atlântico e completamente seco, que guarda informações sobre as relações de Uribe com pessoas à margem da lei.

Pascual Serrano é jornalista. Acaba de publicar "Meios violentos. Palavras e imagens para o ódio e a guerra". Maio 2008. El Viejo Topo.

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores



Mais informações;
- FARCS: terroristas ou insurgentes?
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terça-feira, 3 de junho de 2008

Sindicalismo de resultados



A revista Carta Capital traz em seu site uma matéria que descreve, de modo bem explícito, o tipo de sindicalismo que vem predominando no Brasil. Além de fazer uma análise do que foram e estão se tornando as duas maiores centrais sindicais do Brasil. Revela tambémn o quanto o movimento sindical está se deteriorando do ponto de vista da combatividade.
É ler o texto para estar por dentro, logo abaixo;

A Força Sindical não nasceu do sonho e das lutas de um grupo de operários. É, antes de mais nada e sobretudo, resultado da articulação do empresariado paulista. Cevada no peleguismo, tinha a função de se contrapor, com seu “sindicalismo de resultados”, à crescente influência da “inconfiável” Central Única dos Trabalhadores. Mas, como Fernando Collor de Mello, feito presidente da República em 1989 para impedir a vitória de Leonel Brizola ou do Sapo Barbudo, a Força saiu do controle. Sua deformação deriva da soma da tacanhês das elites econômicas de São Paulo com a tendência do Estado brasileiro de tutelar os movimentos sociais, exacerbada nesses anos de Lula no poder.

Servir de engrenagem ao capital deixou de ser interessante há alguns anos para os dirigentes da central. Descobriu-se algo mais rentável, seguro e de futuro promissor: a manipulação das verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e a criação de ONGs alimentadas com dinheiro público. O fortalecimento, inclusive financeiro, da Força Sindical impulsionou a carreira política de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, principal liderança nacional da entidade e deputado federal pelo PDT. E tem sido a causa de sua desgraça. Gravações interceptadas, documentos apreendidos e depoimentos tomados pela Polícia Federal, no rastro da Operação Santa Tereza, apontam Paulinho como um dos chefes de um esquema que mistura desvios de empréstimos do BNDES, lastreados pelo FAT, e uma rede de prostituição. Coisa de filme B.

O deputado nega as acusações, se diz vítima de “armação política” e promete pedir reparação judicial por eventuais danos morais. A cada dia, sua situação fica, porém, mais complicada. O corregedor-geral da Câmara dos Deputados, Inocêncio Oliveira (PR-PE), deu a entender que recomendará a cassação do parlamentar, por não ter dúvidas a respeito das acusações que pesam contra o colega. Na quarta-feira 28, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, solicitou ao Supremo Tribunal Federal autorização para investigar Paulinho (como deputado, ele tem foro privilegiado).

As acusações envolvem assessores próximos do parlamentar e até sua mulher, Elza de Fátima Costa Pereira, ex-secretária da presidência da Força Sindical e que, após o casamento, tornou-se responsável pelo projeto Meu Guri. A ONG é acusada de receber dinheiro do esquema, que facilitava empréstimos com prefeituras e empresas no estado de São Paulo a partir de projetos fajutos. A PF afirma ter identificado, até o momento, repasses de cerca de 150 mil reais da quadrilha para Paulinho e Elza em apenas uma das operações de empréstimo. Um dos cabeças do esquema, João Pedro de Moura, ex-assessor do deputado, mudou sua versão da história e tem inocentado o ex-chefe. “Coloquei para o grupo todo que tinha de pagar o Paulinho, mas, na verdade, esse dinheiro era para mim, para poder melhorar minha participação nos honorários”, declarou Moura no último depoimento à PF.

Ainda que as acusações revelem muito do caráter peculiar da administração da Força Sindical, que mais se parece com uma empresa privada cujo acionista majoritário é o deputado Paulinho, a situação deveria servir de reflexão aos movimentos sindicais brasileiros. Fundamental no processo que desaguou no fim da ditadura e na campanha pelas Diretas Já, o sindicalismo tornou-se quase irrelevante no Brasil de Lula. Quando muito, aparece algum dirigente para reclamar da alta dos juros ou de alguma medida econômica pontual, à moda dos barões da Fiesp. Nem os trabalhadores formais, muito menos os informais, podem se sentir hoje representados pelas organizações sindicais, justamente em um momento de profunda transformação da economia nacional.

Enquanto correm atrás da própria sobrevivência, no lobby pela manutenção do imposto sindical, e comemoram o ciclo de melhora dos níveis de emprego e renda, cuja duração ainda é incerta, os sindicatos parecem trancafiados em uma espécie de autismo social. Entre a tibieza e a malandragem.
Links relacionados ao texto;
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segunda-feira, 2 de junho de 2008

FNDC questiona relatório da PL 29, sobre tv por assinatura.


Vamos ficar atentos a votação do Projeto de Lei 29/2007 que deve ser encaminhada nos próximos dias ao Congresso. Apesar de algumas modificações, Jorge Bittar - PT, relator do projeto, disse que no bojo do projeto há avanços importantes, já que a PL teve que ser discutida com toda a sociedade. Creio que esta sua afirmação ocorreu depois de algumas afirmações do FNDC de que o processo de discussão junto com a relatoria tenha pendido aos interesses empresariais do setor.
Abaixo publico a resposta de Bittar, mas gostaria de deixar claro que o Fórum Nacional pela Democraticação das Comunicações é uma entidade séria e importante na discussão dessa nossa luta por mais democracia em nossa mídia brasileira.

Resposta de Bittar ao FNDC;


Considerações sobre o documento do FNDC

No texto do FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação), intitulado “PL 29 ignora espírito público contido na Lei do Cabo”, há uma análise que não condiz com a realidade do setor de TV por assinatura no Brasil. Reconheço no FNDC uma entidade séria e comprometida com a democratização dos meios de comunicação em nosso país. No entanto, o documento resultante da sua plenária nacional parte de pressupostos equivocados, como se a Lei do Cabo tivesse garantido “o controle público das comunicações, universalização dos serviços e compartilhamento da infra-estrutura”.

Em primeiro lugar, parece ignorar completamente o cenário no qual está sendo discutido um novo marco regulatório para o setor de TV por assinatura. Neste um ano e meio de discussão do projeto, foi criada uma página na Internet intitulada “Liberdade na TV”, patrocinada pela ABTA, com o intuito de tentar impedir a aprovação do projeto; vários canais de TV fechados vincularam um spot com o mesmo teor e diversas manobras foram tentadas para levar o projeto para outras comissões com o objetivo de inviabilizar sua tramitação. Desconhecer este quadro leva ao equívoco de considerar que fazemos um projeto apenas com os nossos desejos. Na realidade, ele está sendo construído através de embates e tentativas de diálogo com diversos setores que se opõem ao desejo de uma ampliação da democratização dos meios de comunicação.

Não é verdade que setores empresariais “passaram praticamente a determinar a redação final do PL”. As idéias contidas no substitutivo têm sido debatidas e enriquecidas em reuniões e audiências públicas com representantes da sociedade civil, dirigentes de empresas de radiodifusão e de telecomunicações, programadores e produtores de conteúdo audiovisual, aí incluídos os independentes, operadoras de TV por assinatura, estudiosos do assunto, brasileiros e estrangeiros, e deputados de vários partidos. Em resumo, o método de trabalho adotado é democrático. O substitutivo é moderno e transformador porque cria um novo paradigma ao separar o ambiente de telecomunicações do de conteúdo. Além disso, contempla avanços significativos no tratamento da questão do conteúdo. É preciso lembrar que, ao mudar o paradigma estamos pavimentando o caminho para as transformações democráticas em toda a comunicação no país.

Universalização

Todos sabemos que a principal barreira para ampliar o acesso à TV por assinatura é o preço cobrado pelo serviço. Hoje o Brasil tem cerca de 5 milhões de assinantes. Com as propostas contidas no PL 29/07, espera-se que o número de assinaturas mais do que dobre em quatro anos, atingindo mais de 30 milhões de pessoas, e que novos canais e pacotes sejam lançados, diversificando o serviço, de modo a agradar um maior número de brasileiros.

O PL 29 promove a competição e a entrada de novas empresas distribuidoras no mercado. Ao fazer isso, o mercado tende a crescer e o serviço a tornar-se mais barato. A entrada das empresas telefônicas nos serviços de TV por assinatura irá contribuir para esse objetivo. Ao contrário da legislação atual que trabalha em cima do aspecto tecnológico, o PL 29 não se preocupa com qual tecnologia será prestado o serviço, mas com a garantia do mais amplo acesso dos cidadãos à informação e à cultura. Pela legislação atual, apenas a TV a cabo (exemplo: NET) deve ofertar os canais gratuitos (exemplos: Globo, TV Cultura, TV Comunitária, TV Câmara etc.). O projeto estende o dever de ofertar os canais de utilização gratuita para todas as modalidades de serviços de televisão por assinatura (DTH, MMDS etc.), desde que seja tecnicamente viável. Deve se observar também que o artigo 34 do PL 29 garante ao poder público a possibilidade de, se for necessário para o alcance de objetivos sociais, estabelecer uma política específica para beneficiar setores de baixa renda.

Conteúdo

Além disso, a criação de espaço para a veiculação do conteúdo audiovisual brasileiro e o estabelecimento de novos mecanismos de financiamento à produção vão possibilitar a oferta de conteúdo mais diversificado e com alto padrão de qualidade. Pela primeira vez a produção de conteúdo audiovisual brasileiro contará com uma soma tão expressiva para financiamento. Ao todo serão R$ 500 milhões anuais através do fundo de fomento gerido pela Ancine. Não é verdade que “os critérios adotados para as cotas praticamente são inócuos”. Se assim fosse, por que os programadores internacionais representados pela ABPTA (Associação Brasileira dos Programadores de Televisão por Assinatura) fazem uma oposição ferrenha ao projeto? Por que tentam fatiar o projeto de maneira que o audiovisual não seja regulado? O projeto conta, por outro lado, com o apoio dos produtores nacionais e independentes, representados pela ABPI (Associação Brasileira de Produtores Independentes).

Não é verdade também que o projeto não contempla a produção regional. “No mínimo 30% dos recursos relativos ao fomento do audiovisual deverão ser destinados a produtoras brasileiras estabelecidas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, segundo critérios e condições estabelecidos pela Agência Nacional do Cinema, que deverão incluir, entre outros, o local da produção da obra audiovisual, o local de residência de artistas e técnicos envolvidos na produção e a contratação na região de serviços técnicos a ela vinculados”. A Ancine ganha um papel ainda mais relevante na medida em que regulará e fiscalizará toda a produção e programação audiovisual. Desagregação de rede De acordo com o substitutivo, a atividade de distribuição será livre para empresas constituídas sob as leis brasileiras, com sede e administração no País. No entanto, deverão ser observadas todas as restrições e condicionamentos previstos na Lei Geral de Telecomunicações. A Anatel deverá regular e fiscalizar a atividade de distribuição. Portanto, está garantida a desagregação de rede, conforme previsto no artigo 155 da Lei Geral de Telecomunicações.

Conselho de Comunicação Social

Com relação às afirmações sobre o Conselho de Comunicação Social, o substitutivo não tem qualquer intenção de extingui-lo. Embora tenha caráter consultivo, todos estamos conscientes de sua importância. Sabemos das dificuldades enfrentadas para sua implantação e defendemos sua manutenção como espaço democrático e seu pleno funcionamento. Como sempre, continuo aberto à discussão com todos os atores. Portanto, aceito sugestões para inclusão no substitutivo de mecanismos que reforcem o Conselho Comunicação Social e suas funções. Acho importante ressaltar que, neste momento de decisão, é imperiosa a participação de todos que defendem uma comunicação democrática para que os objetivos maiores do substitutivo sejam alcançados.

Jorge Bittar – deputado federal PT/RJ e relator do substitutivo ao PL 29


Mais;
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O que já foi postado aqui no pimentus sobre a PL 29;
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sexta-feira, 30 de maio de 2008

TeleSUR: a emissora de TV alternativa para América Latina


É com alegria que volto a comentar a respeito da existência da TeleSUL, mais conhecida como TeleSUR, agora em espanhol. E SUR em referência ao sul do continente. A TeleSUR nada mais é do que a materialização do sonho de muitos em ter a sua disposição uma emissora de televisão que fuja do esquema de dominação ideológica arquitetada nos Estados Unidos e colocado em prática através de seus canais de notícias CNN e FOXNEWS. Além é claro de suas consignares em diversos países da América Latina. No Brasil o exemplo mais emblemático é a Rede Globo, que utiliza sua estrutura para reproduzir idéias de nossa classe dominante.

A TeleSUR já completou 3 anos. Fundada em 24 de julho de 2005, aniversário de Símon Bolívar, a emissora tem como signatários diversos países da América Latina como fundadores ou co-gestores. Sua importância se deve pelo fato de que quebra a hegemonia na divulgação de notícias em espanhol para o continente. Não só por causa do idioma, mas pela influência da visão política norte americana para o continente. Com ênfase em divulgar os interesses pertinentes de cada país, a emissora foca na integração política, cultural e na consolidação de uma emissora plural. A TeleSUR marca presença com suas matérias singulares, atípicas até. Contrastando com o modo asfixiante que estamos acostumados a assistir nossos noticiários televisivos.

A emissora têm diversos programas transmitidos em espanhol e em português. Diferentemente das emissoras americanas, os apresentadores são de diversos países.
Para aqueles que dominam o idioma, é possível notar as diferenças de sotaques.

Vale assinalar ainda que cerca de 40% da programação de Telesul é composta de programas jornalísticos (noticiários, entrevistas e reportagens). Os outros 60% exibirão material de produtores independentes, emissoras de televisão regionais, comunitárias e universitárias e de organizações sociais de toda a região. Produções do cinema latino-americano também terão espaço garantido.


Acompanhem um pouco mais de sua programação acessando o site oficial. Lá é possível assistir sua programação.


Links relacionados ao texto;


Programação ao vivo
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Sinal da Telesul já é visível em vários sites na Internet
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Combate ao monopólio das comunicações requer fortalecimento da mídia alternativa
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A Telesur será independente sempre, neutra jamais
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Telesur e TV Brasil: qual a diferença?
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quinta-feira, 29 de maio de 2008

A arte irreverente do cartunista Orlandeli


Walmir Americo Orlandeli é cartunista e ilustrador. É Formado em publicidade em São José do Rio Preto e uma ótima referência no meio jornalístico em relação ao seu trabalho. De humor sagaz, a qualidade de suas ilustrações é reconhecida por todos que tenham contato com suas ilustrações. Teve seus trabalhos selecionados em diversos salões nacionais e internacionais. 

Por acaso tive a oportunidade de conhecer seu trabalho mais de perto através de seu blog. Não que já não o
tinha visto, mas como a maioria dos leitores, não prestamos atenção em quem assina as ilustrações. Importante esse detalhe. Certamente não seria surpresa pra mim reconhecer outros trabalhos desenvolvidos por ele.

Não o conheço pessoalmente, como também não conheço Carlos Latuff. O qual tive o prazer de postar um texto sobre ele aqui no Pimentus, além de apresentar algumas de suas ilustrações. Acredito que a diferença entre os dois cartunistas esteja no fato de que as ilustrações de Latuff sejam
politicamente engajadas e de Orlandeli não. O que não tira o brilhantismo de seu trabalho.

Uma de suas criações é o Grump, personagem de tiras de quadrinhos. Muito popular no Brasil. Grump "
possui personalidade instável e é desastrado e azarão", como define Orlandeli em seu site.
Abaixo um pouco de sua arte e irreverência;

Sobre o movimento natimorto CANSEI;




Ironia com a situação vivida pelos turistas e cariocas no Rio;

Sátira em relação ao "dossiê" que a oposição tenta imputar no colo da Ministra Dilma Roulsseff;


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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Gilmar Mendes: Tucano despenado no Supremo Tribunal Federal


Já está se tornando insuportável a maneira como alguns integrantes do Supremo Tribunal Federal tem se comportado. O primeiro deles foi com o Ministro Marco Aurélio de Mello, depois de muita exposição midiática e posicionamento de enfrentamento com o atual governo em questões que não são de sua competência. Agora o STF nos "brinda" com seu novo presidente Gilmar Mendes. De postura beligerante, tem se mostrado extremamente espalhafatoso em suas opiniões em relação ao movimento popular. Na tentativa de imputar neles toda e qualquer visão negativa. Mas não comenta nada sobre as idiocrasias de nossa elite reacionária. Típico de quem chegou pra fazer o jogo de quem hoje chora por estar fora do governo neste país (lê-se turba do PSDB).

Deveria ter postado mais informações quando de sua posse. Onde desceu a lenha em tudo que representasse resistência ao avanço da hipocrisia em nossa sociedade. De cunho conservador e reacionário, Gilmar Mendes chega pra dar mais uma forcinha para os tucanos, destronados do poder no governo federal e que gozam de muita simpatia de nossa mídia corporativa brasileira.


O texto abaixo é do blog Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim. É muito emblemático. E descreve muito bem aquilo que penso dessas duas figuras.



MENDES CRIA STRESS NA REPÚBLICA

. O Presidente (provisoriamente do Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes aparece duas vezes numa edição de fim de semana da Folha (da Tarde *) de S. Paulo.

. Primeiro, diz que “no final de junho, ou no máximo, início de agosto” o STF deve julgar as ações que contestam a demarcação da terra indígena Raposa/Serra do Sol.

. A informação é tão imprecisa quanto inútil.

. Inútil para você, caro leitor.

. Porque, para o Presidente Gilmar Mendes, tem a propriedade de levá-lo a um título de reportagem num jornal da relevância (?) da Folha.

. O Ministro diz não ter opinião formada sobre a matéria.

. E se tivesse não poderia dizer qual é.

. Ah !, que progresso.

. O Ministro (?) Marco Aurélio de Mello, se perguntado, anunciará seu voto, com prazer.

. Marco Aurélio de Mello é um juiz que anuncia o voto no PiG e ninguém se espanta.

. Acha natural ...

. O presidente Mendes, porém, faz uma declaração bombástica, dessas de arrasar quarteirão: “Estou convencido de que o tribunal (STF) tem em mãos um caso peculiar. Vai se pronunciar, sob a Constituição Federal de 1988 (que outra seria, Ministro ?), acerca de soberania indígena ...”

. Fabuloso.

. Por que o amigo leitor não tinha pensado nisso antes ?

. Para que serve a declaração, feita logo após o Presidente Mendes retornar de uma fact finding mission à região ?

. Para nada.

. Só para aparecer.

. Isso foi na pág. A12 da edição de sábado.

. Na página A8, da mesa edição de sábado da Folha, o Presidente Mendes prevê que a discussão sobre “a nova CPMF” ... “chegará à apreciação do Supremo”.

. Como é que ele sabe ?

. Que nova CPMF é essa ?

. O Congresso já aprovou ?

. E se for, vai ao Supremo ? Por que ?

. O Supremo se transformou na Câmara Revisora do Legislativo ?

. O Supremo é o AI-5 do Legislativo ?

. O Supremo ou o Presidente do Supremo ?

. O Presidente (do Supremo) diz também que a nova CPMF vai provocar “um stress do ponto de vista constitucional”.

. Tradução: uma nova CPMF só passa se for por cima do cadáver do Presidente (do Supremo).

. E o que significa “stress” constitucional ?

. No Houaiss: estresse: substantivo masculino; Rubrica: medicina.
estado gerado pela percepção de estímulos que provocam excitação emocional e, ao perturbarem a homeostasia, levam o organismo a disparar um processo de adaptação caracterizado pelo aumento da secreção de adrenalina, com várias conseqüências sistêmicas; stress

. A palavra comporta acepções como “tensão”, “crise”, “ansiedade”, “estar à beira de um ataque de nervos”.

. Pergunta ao Presidente Mendes: uma nova CPMF provocaria “stress” NA Constituição ?

. Será preciso alterá-la ? Curá-la dessa crise de ansiedade ?

. Não, não é isso o que o senhor quis dizer ?

. Então, pergunta-se: provocaria tensão nos pobres e desvalidos que temem não haver recursos públicos para tratar da saúde ?

. Ou provocará stress e tensão, crise, nervosismo, aumento da adrenalina no pessoal da FIE P – assim mesmo, com a evasão do “S” –, que não gosta de pagar imposto ?

. E quem disse que o Supremo tem que se preocupar com strees ?

. O Supremo virou o divã da República ?

. “Stress” é o mal que aflige o cidadão de uma República (?) em que o Presidente da mais alta Corte de Justiça pretende ocupar o espaço do Executivo e do Legislativo.

. Porém, como ele ocupa espaço do “lado certo”, o lado do PiG e da “elite branca”, é tudo normal, natural, o pessoal finge que não vê ...

. Clique aqui para ler o que o Conversa Afiada publicou sobre as atividades do novo Presidente (do Supremo)



Mais sobre o atual Presidente do STF

A festa Tucana no STF
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Falando o que não devia
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Gilmar Mendes e os Marinho; em família.
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domingo, 25 de maio de 2008

A Luta de Classes e o papel da Justiça do Trabalho


A luta de classes, tema já abordado aqui, está tão presente entre nós e tão obscuramente invisível que dificilmente é possível perceber se não houver conflitos. Principalmente quando há movimentos no sentido de não expô-las ao conhecimento das massas populares. Sua invisibilidade contribui para que a crítica, à esta luta desigual, não exista. Que a consciênica não apareça e que a exploração do trabalho se perpetue.
Se olharmos ao longo da história de nossa sociedade humana poderemos observar os movimentos que a humanidade fez sempre tangidos pela economia. É ela a força motriz do movimento da sociedade. A reprodução social da vida é sua configuração visual mais emblemática.

Para deixar um pouco mais claro o que quero dizer, consegui encontrar a entrevista de
Cezar Britto, novo presidente da OAB Federal e estou postando aqui para uma melhor compreensão do que tento comunicar.
O significado de sua eleição para o Conselho Federal da OAB é emblemática. Com ela poderá se perceber sua importância nos dias atuais devido aos novos desafios que o trabalho tem frente ao capital.
A entrevista revela entre outras coisas o papel da Justiça do Trabalho sob a crítica de Cezar Britto, a visão das relações das atuais Centrais Sindicais com o governo e o parodoxal posicionamento de um governo oriundo do movimento sindical mas tão comprometido com o mercado (Capital).

Acompanhem abaixo a entrevista de Cezar Britto, que compilei do site da revista
Carta Capital e percebam o quanto esta luta de classes está fazendo parte de nossas vidas e de quem nos rodeia.


Depois de 68 anos de vida, e de 32 administrações, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) abriu espaço para eleger à presidência um advogado da área trabalhista. O mérito é de Cezar Britto, que tira do limbo não o pequeno estado de Sergipe, mas, também, a própria advocacia trabalhista. E tudo ocorre em um momento especial, quando a relação capital e trabalho atinge um novo patamar de confronto.

Nesta entrevista à CartaCapital, o presidente da OAB fala de outros temas, como a escuta telefônica, para a qual pede “regras”, e da fragilidade da advocacia pública num país onde a população pobre tem acesso limitado à Justiça. Mas o foco da conversa são as mudanças na legislação trabalhista. Há, segundo ele, um ataque aos direitos trabalhistas. E ao espírito da Justiça do Trabalho, que se modernizou, mas se deformou.
“Ela foi criada por Getúlio Vargas para proteger o trabalho do poder avassalador do capital. Nesse conflito, o juiz não pode tratar como iguais o empregado e o empregador”, alerta Britto.
CartaCapital: A reforma trabalhista é um dos itens da pauta de reformas. Qual é o alvo das mudanças?
Cezar Britto: O que se quer, na verdade, é aumentar a competitividade das empresas globalizadas. Os direitos dos trabalhadores estariam impedindo os lucros, lucros maiores. Isso entrou em jogo desde o governo Fernando Henrique Cardoso.
CC: Os direitos trabalhistas entram no leilão da competição.
CB: Essa é exatamente a lógica. Por ela, o custo do trabalho atrapalha a competitividade. Onde se paga menos, mais atrativo se torna para o investimento do capital. Isso entrou em discussão com o neoliberalismo e ainda não foi abandonado.
CC: Não foi abandonado no governo Lula?
CB: Não foi. Tanto é que, já no governo Lula, foi aprovada a lei de recuperação das empresas. Uma lei que segue essa lógica. Ela revogou alguns princípios que eram fundamentais para o trabalhador.
CC: No governo de um ex-operário metalúrgico, a contradição fica maior?
CB: Fica maior. O espírito da lei de recuperação das empresas é o mesmo que se espalha por vários países. Fui convidado para fazer uma palestra em Moçambique, cujo tema foi exatamente essa lei. Ela já vigora na Argentina, no Panamá.
CC: O que ela muda concretamente na relação trabalho e capital?
CB: Havia um entendimento que o trabalhador não era responsável pela gestão da empresa da qual não aufere lucros. Por isso, se convencionou que ele também não poderia ser responsabilizado pela má gestão ou pelo desvio de verbas nas empresas. Quem tem responsabilidade é quem tem o lucro, o empresário. Nessa lógica, o patrimônio da empresa servia para garantir o salário do trabalhador.
CC: Não é mais?
CB: Depois dessa lei, apenas uma pequena parte se destina aos direitos do trabalhador. O segundo credor passaram a ser as instituições bancárias. Outra mudança fundamental, que simboliza bem este momento do conflito capital–trabalho, é o fim da “despersonalização” do patrimônio da empresa, que, antes, garantia também a indenização do trabalhador. Hoje, em caso de processo de recuperação da empresa, o patrimônio é distribuído a um conselho de credores. Um bom exemplo disso é o da Varig. A parte boa do patrimônio foi passada à Gol, a parte ruim ficou para garantir os créditos trabalhistas.
CC: Como foi a trajetória dessa mudança no Brasil?
CB: Ela nasceu no governo Fernando Henrique e foi aprovada no governo Lula. O governo Lula, no início, acertou ao fortalecer os sindicatos. Fortes, eles têm um bom sistema de negociação com a classe patronal. Mas a reforma apresentada, discutida em um fórum com empregados e patrões, dorme no Congresso. Não avançou.
CC: O que é bom na proposta de reforma trabalhista?
CB: Ela permite que os sindicatos se unam, como dizemos, “do poço ao posto” no ramo da produção. Hoje, os sindicatos são constituídos por categorias profissionais. Às vezes, uma empresa tem cinco, seis ou sete sindicatos. Isso dilui a negociação e fragiliza os empregados. Essa proposta permite a união dos sindicatos. Acaba a unicidade sindical.
CC: E a questão da contribuição sindical?
CB: A contribuição sindical nasceu para premiar os sindicatos mais atrelados ao Estado. Os sindicatos precisam ser mantidos pelo reconhecimento da categoria e não pela distribuição do dinheiro feito pela contribuição. Talvez fosse o caso de se fazer uma redução paulatina.
CC: A Justiça do Trabalho funciona?
CB: A Justiça do Trabalho cresceu muito nos últimos anos e foi modernizada. É uma das mais ágeis do Brasil, e que responde mais rapidamente às demandas. A competência da Justiça trabalhista foi ampliada e absorveu um mundo de questões novas, como as referentes às greves e às indenizações decorrentes de acidente de trabalho, entre outras.
CC: Isso tem favorecido os empregados, já que se trata de uma justiça feita para equilibrar as relações entre o capital e o trabalho?
CB: Esse é o grande diferencial da Justiça do Trabalho. A grande força dela, ao ser criada, foi a compreensão de que esses dois mundos são desiguais. Ela trata diferenciadamente pessoas que não são iguais: o empregado e o patrão. É diferente do princípio que norteia a Justiça comum, que é o da igualdade contratual. Isso significa que todas as pessoas diante dela são iguais e, sendo iguais na relação contratual, têm de ser tratadas da mesma forma.
CC: Nesse sentido, os trabalhadores devem vivas a Getúlio Vargas?
CB: Vargas tinha a visão da época. Isso significou uma intervenção muito forte para suavizar muitos pontos, com a intervenção do Estado, a exploração do capital. A estrutura sindical é uma estrutura esmagadora. É preciso ser reformada e modernizar pontos que permitam uma negociação mais livre entre empregados e empregadores.
CC: De que maneira as decisões da Justiça do Trabalho, quanto a essas novas atribuições, têm sido melhores ou piores para os empregados?
CB: Alguns dizem que passaram a ser mais conservadoras. Uma contradição: a Justiça trabalhista ser mais conservadora nas questões sociais do que a Justiça comum, que privilegia a igualdade contratual.
CC: E vai ficar assim mesmo?
CB: Se a Justiça do Trabalho perder a sua razão de ser, a visão diferenciada, ela vai implodir. Enquanto esse mundo for desigual, ela não poderá ser jamais uma justiça que compreenda que há igualdade na relação contratual entre capital e trabalho.
CC: Afora essas reformas, a OAB também tem uma pauta de mudanças, como, por exemplo, o da escuta telefônica, o grampo. Qual é o problema se ela for feita com autorização judicial?
CB: A questão é reconhecer o direito de defesa para todo mundo. Os grampos telefônicos banalizados como estão facilitam a nulidade do processo no futuro. A conversa do cliente com o advogado não pode ser grampeada. É um atentado ao direito de defesa. Se isso for desrespeitado, o dano à sociedade é maior. A OAB interfere para evitar esse tipo de falha processual.
CC: Isso seria resultado do autoritarismo de uma polícia criada para reprimir a população pobre?
CB: Pois é. O sistema carcerário demonstra isso. Lá estão os suspeitos de sempre: os pobres, os pretos e as prostitutas. E há mais presos pobres porque o Estado não cumpre outro dever constitucional, que é o de garantir a defesa dos pobres. Esse seria o papel dos defensores públicos.
CC: Às vezes, parece que isso nem existe.
CB: É um sinal do abandono em que vive a Defensoria Pública, conseqüência de um país que não acredita que cuidar dos pobres seja prioridade do Estado. Mas a Constituição determina que todos tenham acesso à Justiça.
CC: E quanto às escutas telefônicas?
CB: Bisbilhotar pessoas virou uma cultura no Brasil. Há uma competição para saber quem bisbilhota. Há 426 mil grampos telefônicos autorizados judicialmente. É um número muito elevado. E qual será o risco dos grampos telefônicos num futuro autoritário? Isso também pode servir como instrumento de chantagem. A escuta é um instrumento de controle muito forte que precisa ser regulamentado.
CC: Qual é a alternativa?
CB: A escuta precisa ter prazo de validade. Acho que o limite deveria ser a partir do momento em que a investigação é tornada pública. Eles estão grampeando conversa de advogados com clientes. Isso é um absurdo. Uma regulamentação do grampo deve estipular que todos os interessados, o acusado principalmente, tenham acesso à integralidade das gravações feitas. As conversas tiradas do contexto muitas vezes ganham outro sentido.
Links relacionados aos dois textos;
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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Revista Le Monde Diplomatique; Aumento do número de Brasileiros na Legião Estrangeira


Matéria interessante da Revista Le Monde Diplomatique Brasil é a que recebi por e-mail falando a respeito do aumento do número de brasileiros que estão se alistando na lendária Legião Estrangeira. Tropa de elite das forças armadas da França com diversos estrangeiros fazendo parte dela.

A matéria é de
Maranúbia Barbosa.

Acompanhem abaixo e fique por dentro desta informação também;


REPORTAGEM

Mercenários brasileiros na Legião Estrangeira

Atraídos por salários, a chance de apagar o passado e aventuras, dezenas de brazucas alistam-se, todos os anos, no legendário exército de aluguel francês. Nossa repórter conseguiu deles revelações sobre a condição de soldados de um pátria alheia, em missões cujo sentido desconhecem

Maranúbia Barbosa

(19/05/2008)

Brasileiros jovens estão pondo a mochila nas costas e deixando o país para se alistar na Legião Estrangeira — unidade de elite do exército francês, composta por cerca de 7 mil estrangeiros de mais de 130 nacionalidades diferentes. Estima-se que pelo menos cem brasileiros são contratados a cada ano pelo legendário exército que defende os interesses da França mundo afora, sobretudo em áreas conflituosas.

O número exato de brasileiros não é divulgado pela Legião Estrangeira. Porém, de uns cinco anos para cá, a procura tem aumentado, mesmo sabendo que ao vender seus serviços para a França estão se expondo a riscos de morte.

Medo parece não ser problema para os brasileiros e, muito menos, para outros estrangeiros. Todos os anos, mais de 5 mil candidatos do mundo inteiro batem à porta desta composição militar. Mas somente cerca de 800 deles conseguem dar conta de passar pela bateria intensiva de testes físicos e psicotécnicos.

Essas informações são dos próprios legionários, entre os quais o brasileiro Marcos dos Santos, 32 anos. Natural de Itapira (SP), ele serve, há três anos, no 2º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas (REP) — tropa considerada crème de la crème da Legião — em Calvi, cidade na ilha da Córsega. Segundo ele, não são os polpudos salários (que vão de 1,5 mil euros até mais de 5 mil para quem prossegue na carreira), e sim o espírito de aventura, que move a maioria dos soldados. Muitos deles parecem, também, ser guiados por um velho slogan da Legião ainda em voga: "chance de mudar de vida, qualquer que seja a origem, nacionalidade, religião, diplomas, nível escolar, situação familiar ou profissional".

Nenhum candidato é obrigado a fornecer a verdadeira identidade. Incorporado, o legionário passa a ser uma "pessoa não-civil", alguém que não existe juridicamente para o mundo

Mesmo nos dias atuais, o engajamento na Legião ainda é envolto em lendas e controvérsias. Ao se alistar, o candidato não é obrigado a fornecer a verdadeira identidade e nem relatar nada do que já viveu. Ele tem o anonimato assegurado e é protegido de qualquer ingerência relativa ao seu passado, graças a um decreto-lei francês de 1911. O legionário é juridicamente uma "pessoa não-civil", ou seja, por ser portador de uma identidade fictícia, não existe de fato. Por conseguinte, não pode se casar, nem tirar carteira de motorista, nem comprar imóveis ou veículos. Em suma, o soldado só existe para a Legião Estrangeira. Independente do estado civil, ele é considerado solteiro e sem vínculos familiares. Salvo em raríssimas exceções, ele pode obter a real identidade antes do término do contrato.

Engajados por um período compulsório de cinco anos, sem nenhum direito a desistência antes do prazo, os legionários estão sujeitos a uma disciplina severa dentro e fora da caserna. Prisão por deserção, tolerância zero para toda e qualquer falta, tratamento rude — "na porrada" mesmo, segundo Santos. Essas são só algumas das condições aceitas sem pestanejar por estrangeiros que salvaguardam os interesses de uma das sete potências mundiais e que cumprem sem titubear as letras miúdas do contrato. Esse, diga-se de passagem, é assinado logo de cara, na primeira semana, mesmo por aqueles que não falam uma só palavra da língua francesa. "Assinamos um papel atrás do outro, sem tradutor nem nada. A gente entrega a vida para eles no ato", afirmou Santos.

Uma investigação minuciosa impede o recrutamento de condenados por crimes comuns, apesar de que "delitos leves" são relevados. Não existe, no entanto, definição do que a Legião Estrangeira entende por delitos de pouca importância. Pelo código da unidade, terroristas e demais criminosos procurados pela Interpol não são aceitos em nenhuma hipótese.

Asiáticos, europeus do leste e latino-americanos (com destaque para os brasileiros) somam 70% da Legião Estrangeira. Franceses mesmo, só 19%

A maior parte dos legionários, cerca de 70%, vem de países que não falam francês. Em 2005, dos 900 novos engajados, 32% eram de eslavos provenientes do Leste europeu, sobretudo da Romênia, Rússia e ex-repúblicas soviéticas. Em seguida, vieram os latino-americanos, 24,5%, com destaque disparado para o Brasil. Soldados de nacionalidade francesa ou originários de ex-colônias somaram 19%. Os asiáticos, especialmente os chineses, são numerosos.

Além dos benefícios trabalhistas, sociais (férias, seguro-saúde e conta em banco, por exemplo) e toda a documentação concedida por um país conhecido por respeitar os direitos do homem, eles ainda podem requerer a cidadania francesa ao cabo dos cinco anos de serviço. O direito é assegurado por lei, bastando para isso apresentar um atestado de boa conduta expedido por um comandante da Legião Estrangeira às autoridades competentes.

Os legionários recebem seus vencimentos quase que totalmente livres de despesas. As refeições feitas no quartel são gratuitas de segunda a sexta-feira, e nos finais de semana pagas à parte (cerca de 4 euros – cerca de 10 reais). Aos salários iniciais, em torno de mil euros para quem serve no continente e de 1,5 mil para os alojados na ilha da Córsega, juntam-se os prêmios e bonificações pagos, quando os soldados partem em missões fora do território francês. Conforme o caso, os soldos podem até triplicar.

A reportagem tentou por diversas vezes contato por telefone e email com um dos quartéis da Legião Estrangeira na região de Paris, mas não foi atendida.

Desde que ingressou nas fileiras da Legião Estrangeira, em maio de 2005, o ex-piloto de helicóptero Marcos dos Santos já partiu em missões de prevenção em países como o Djibuti e Costa do Marfim (na África), e Nova Caledônia, possessão francesa na Oceania. Segundo Santos, os legionários recebem as instruções sobre o que vão fazer poucos dias antes do embarque. As missões duram de três a quatro meses.

Viajar sem conhecer o país de destino, os problemas lá vividos ou os interesses da França no local não é problema. "Somos mercenários", afirma legionário brasileiro

Santos disse que o fato de viajar às cegas, sem conhecer com detalhes os problemas políticos e sociais dos países para onde é mandado, sem entender bem porque a França envia tropas para lá, fere sua ética, mas não chega a lhe tirar o sono, e pelo jeito nem o bom humor. "Somos mercenários, esqueceu?", comentou, rindo.

Santos deixou uma vida financeira e profissional estável no Brasil e desembarcou no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, indo direto ao quartel Fort Nogent, em Fontenay sous Bois, cidade na periferia leste da capital francesa. Tinha a frase em francês decorada na ponta da língua: "Eu quero me alistar na Legião Estrangeira". Ele passou por exames médicos e psicotécnicos durante uma semana. "Eles querem ver se o sujeito é muito retardado", satirizou.

Na Legião, Santos, divorciado e pai de um menino de oito anos, teve mantida a nacionalidade brasileira, mas ganhou outra identidade: Roberto da Silva, literalmente seu nome de guerra. Depois da pré-seleção, foi levado para o quartel de Castelnaudary, na cidade de Aubagne, sul da França, onde ficou quatro meses sendo submetido, continuamente, a uma série de rigorosos testes físicos e psicológicos.

O legionário disse que a experiência em Aubagne beirou os limites do suportável. Conforme Santos, quem não tem muita estrutura emocional "bate os pinos cedo". A pressão a que são submetidos é intensa, relatou. "Assim que chega, a gente é obrigado a aprender os hinos e o código de honra da Legião em francês, repetindo as frases como papagaio, sem saber o que está cantando, como numa lavagem cerebral. E debaixo de pontapé". Santos contou também que o candidato que não decora direito as letras do hinário é obrigado a passar a noite fazendo flexões e lavando banheiro.

Nos finais de semana, folga e direito de ir à cidade. Mas nada de discotecas, baladas com mulheres ou bares mal-afamados. "Somos controlados. Temos que ter um comportamento exemplar"

Dono de uma saúde perfeita, Santos pôde se dar ao luxo de escolher onde iria servir na Legião. E ele escolheu justamente o regimento mais difícil — o dos paraquedistas, os mais expostos em situações de combate. "Eu sabia que era ralação, mas quis assim mesmo. Por aventura. Verdade mesmo", garantiu, sério.

A rotina na ilha da Córsega, contou Santos, se resume a fazer faxina, cuidar das fardas, lustrar botas, praticar exercícios físicos e estar sempre "ligado", pronto para ser chamado a qualquer hora do dia ou da noite. Nos finais de semana, impecavelmente uniformizados, os legionários são liberados para ir à cidade, apesar de que nem tudo o que diz respeito à vida mundana é permitido. Nada de discoteca, de baladas com mulheres ou bares mal afamados. "Somos controlados. Temos que ter um comportamento exemplar", acrescentou.

Ainda que convicto do que faz, Santos não recomenda a ninguém o alistamento. "Não me arrependo. Queria conhecer o mundo, me aventurar. Ninguém morre antes da hora. O que não posso fazer é enganar os que querem vir, dizer que isso aqui é fácil. Eu mesmo não sei te falar se vou agüentar até o fim. Tem uns caras que não suportam e caem fora", alertou. O legionário disse que não sabe se vai pedir a cidadania francesa. "Não faço planos", concluiu.

Caso fique até o final do contrato, que termina em dois anos, Santos pode trazer para casa, por baixo, mais de 50 mil euros. Para isso, além de economizar, ele ainda tem que sair ileso de missões em países como o Gabão, Afeganistão, Kosovo ou qualquer outro lugar do mundo onde estoure um conflito que afete a França.

Mais:

Gaúcho pretende seguir carreira
Ex-sargento do exército brasileiro, Luís da Costa, já lutou pelos interesses da França em dois países africanos

Legionários são heróis na França
Desde 1831, quando o exército mercenário foi criado pelo rei Luís Felipe, mais de 35 mil de seus membros já morreram, em dezenas de batalhas mundo afora

Legião Estrangeira
Site oficial em Português

Brasileiros na Legião Estrangeira
Matéria com o mesmo assunto pela BBC Brasil

Legião Estrageira no You Tube
Alguns vídeos reunidos relacionados a Legião Estrangeira
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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Autofagia capitalista começa pelas bordas


Recebi por e-mail o artigo do Gilberto Souza, editor chefe do Jornal Correio do Brasil, lá do Rio de Janeiro. Me surpreendi com o esse texto vindo de um editor de um jornal brasileiro. Não que eu tenha algum preconceito, mas conheço muito bem a pauta que seguem os editores da maioria dos jornais. Destoam explícitamente do que está sendo comentado no texto em questão.

Acho interessante reproduzi-lo aqui e assim fazermos uma reflexão de como nosso comportamento vai se engessando conforme os interesses capitalistas nos vai conduzindo. Sem que com isso percebamos os caminhos que vamos percorrendo.
Confira abaixo;


No capitalismo, população de rua é o fim da cadeia alimentar

O drama da população que mora nas ruas das principais capitais e grandes cidades brasileiras nos apresenta um país degradado. O Brasil das trevas. Câmeras dispostas no prédio do Ministério Público, no Centro do Rio, flagram miseráveis matando miserável a porrete. A poucos quilômetros dali, debaixo de um viaduto, menino ateia fogo em meninos e meninas com espuma encharcada em gasolina. Uma delas, grávida, morre carbonizada. Barbárie.

As metrópoles desta nação, qual organismos vivos e autofágicos, degradam-se na medida direta em que as contas bancárias do capitalismo especulativo engordam, mundo afora. A globalização - essa estranheza que hoje nos permite saber a velocidade com que o bater de asas da borboleta, no Japão, transformar-se-á no furacão extra tropical que varre Santa Catarina - também apresenta uma face sombria, alucinada. A crueldade do ser humano, resquício genético das savanas, adormece apenas quando o estômago está forrado, a cama pronta e a cabeça feita. Sem uma dessas três prerrogativas, ou sem todas elas, que é o caso desses desvalidos, cenas de absoluto descaso com a vida, como a estas que assistimos no cotidiano, serão uma realidade mais cruel e estúpida do que imaginou Dante, a caminho do Inferno.

Durante séculos e, mais recentemente, por décadas de arrogância militarista e corrupção desvairada, espraiadas no último governo liberal, de FHC, construiu-se nesse país a idéia de que haveria uma classe dominante e outra, de dominados. E a meta dos dominados deveria ser a de chegar ao estágio dos dominantes. Estes, igual àquela brincadeira da gata-parida, lutam com unhas e dentes para manter o status quo, custe o que custar, salve-se quem puder. Sim, porque no time dominante a escassez é uma exceção, enquanto aos dominados é a regra. Gerir esse processo se convencionou chamar de "mercado". Manter esse rodízio é a tarefa do próprio sistema.

Ocorre, no entanto, que os recursos são finitos. As commodities, como o tal "mercado" apelidou o milho, o feijão, a farinha e o combustível, entre outros bens necessários à vida no mundo, não bastam para todos, segundo o conceito de quem dominou as civilizações até hoje. O resultado são esses miseráveis que, famintos, sem um teto e entorpecidos com benzina ou outra droga qualquer, matam, roubam, estupram, incendeiam, rastejam sob os viadutos, se escondem, morrem.

Fica mais fácil reconhecer a perversidade do mundo em que vivemos quando um tal de João que, por não se saber o sobrenome dele se convencionou chamar de Brasil, matou um tal de Toquinho que dormia sob uns farrapos na calçada. Chega a ser cristalina a injustiça que se pratica no dia-a-dia, na forma de ver o mundo, de compactuar com o sistema, quando uma Flávia Souza, de 15 anos, grávida de um mês, e Wellington Alves, de 16 anos, são queimados vivos.

No momento em que a Organização das Nações Unidas, em um comunicado oficial, dirige-se ás nações dominantes e dizem para eles que não é possível manter os subsídios aos seus agricultores, sob pena de meio mundo morrer de fome, é um sinal de que a casa começou a cair. É o primeiro estalo. Outros já são ouvidos quando o presidente brasileiro fala que é "sacanagem" essa investida contra o programa de autosustentabilidade energética do país, uma das poucas coisas boas já vistas na direção certa de se salvar esse planeta da extinção, por enquanto. Os governantes desses povos ainda não perceberam que os anéis se foram há muito tempo. Agora, o risco é de perderem os dedos.

O poder béligerante que usurpa o petróleo do Iraque, em uma guerra de mentiras, é o mesmo que arrebenta a cabeça do pobre coitado numa rua carioca. São fatos interligados pela trama do imperialismo e da ambição. Ainda não perceberam, esses que vivem aí amealhando muito mais do que precisam para viver, que acumulam fortunas absurdas e latifúndios inimagináveis, que a cidadania - hoje traduzida no exercício do direito a três refeições por dia - é um fato irreversível. A África, o Brasil, a América Latina, com a rara exceção da Colômbia, a, Rússia, a China e a Índia, entre outros cantos do mundo, descobriram que essa história de dominantes e dominados é conversa fiada.

Nem todas as bombas do sr. George W. Bush ou os seus cães adestrados vão impedir que o restante do planeta coma três vezes, de sol a sol, e, mais saudável, construa um teto sobre suas cabeças, agora feitas não com as drogas, que levam miseráveis a matar miseráveis, mas com idéias, cultura e educação.


Link do texto;

http://www.correiodobrasil.com.br/noticia.asp?c=138427

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