quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Guantánamo: enclave colonial

Guantánamo: enclave colonial

Por Emir Sader

A decisão de terminar com o centro ilegal de prisão e tortura de Guantánamo por parte de Obama demonstra um gesto de quem quer mudar a imagem de país que se dá o direito de fazer o que bem entende no plano internacional, fundado na força e desrespeitando qualquer tipo de legalidade. É a expressão clara do pior tipo de unilateralismo, fundado na força e na prepotência do império.

Mas, como afirmou Ricardo Alarcon, presidente da Assembléia do Poder Popular de Cuba, isso não basta. É como se os EUA tivessem colocado o bode na sala e agora tiram apenas o seu cheiro. Fica a base de Guantánamo, expressão colonial da presença opressora que os EUA sempre exerceram na região.

Cuba – junto com Porto Rico – foram os dois países latinoamericanos que não tinham conseguido se tornar independentes da Espanha no começo do século XIX. (Os dois posteriormente teriam os destinos mais radicais: Cuba, socialista; Porto Rico, Estado “livre-associado”, na verdade semi-colônia dos EUA.) Na segunda metade do século, Cuba desenvolveu duas guerras de independência - a segunda liderada por José Marti -, mas quando estava prestes a que seu exército de mambis – escravos libertos, usando facões de corte de cana, contra os armamentos de fogo dos espanhóis –triunfasse, os EUA intervieram, com o pretexto de “pacificar” e impediram a vitória dos cubanos. Ao lutar por sua independência no final do século XIX, Cuba teve que se enfrentar já com o poderio imperial dos EUA.

Estes se aproveitaram para se apropriar do que restava do império colonial espanhol – Filipinas, ilhas Gwan, Porto Rico e Cuba. A maior ilha do Caribe passou a ter uma independência tutelada, castrada, tornando-se uma neo-colônia ou uma proto-república, como a chamam os cubanos, com direito de intervenção dos EUA, direito que o império usou e abusou para destituir governos com que divergia e impor sua presença militar em Cuba durante décadas.

Foi nesse marco, pela aprovação, pelo Senado dos EUA, da chamada Emenda Platt – do nome do senador que a propôs – que se apropriaram de um pedaço do território cubano por um século, para montar aí uma base naval. Da mesma forma que o Canal de Panamá, os EUA se davam o direito de ocupação militar por um século de território de um país alheio, pela força.

Torrijos conseguiu, por um acordo com Carter, em 1977, recuperar para o Panamá o Canal, mas os EUA se negam a seguir até mesmo sua própria resolução e permanecem em Guantánamo. É bom frisar que nem sequer a URSS teve bases militares em Cuba, enquanto os EUA continuam a ocupar, ilegalmente, um pedaço do território cubano, que passaram a usar para prisões, interrogatórios e torturas.

O que Cuba exige agora é simplesmente a devolução de uma parte do seu território, ocupado pelos EUA. Quando se discute a normalização das suas relações com os EUA, Cuba nem sequer coloca essa devolução como condição prévia, nem tampouco qualquer alteração do sistema político norte-americano, enquanto os EUA não tocam no tema de Guantánamo e querem impor mudanças no sistema político cubano como condição preliminar para a normalização.

Quem exerce o criminoso bloqueio há mais de 40 anos são os EUA. Foram os EUA que patrocinaram uma tentativa de invasão de mercenários a Cuba, em 1961. Foram eles que promoveram um bloqueio naval a Cuba, em 1962, que quase levou à terceira guerra mundial. São os EUA que seguem fazendo vôos piratas para vigiar a ilha. São eles que tentaram, várias dezenas de vezes, assassinar a Fidel. Foram eles que promoveram vários ataques de comandos terroristas a território cubano. São os EUA que são condenados sistematicamente pela Assembléia Geral da ONU e por outros organismos internacionais por aquele bloqueio – quando tem apenas a solidariedade de Israel e de alguma ilha exótica -, mas mantêm o bloqueio e as agressões.

Devolução de Guantánamo, término imediato do bloqueio econômico, normalização das relações entre os dois países, cada um respeitando o direito do outro de escolher seu sistema político, libertação dos 5 cubanos presos e condenados a várias penas de morte nos EUA por trabalhar para impedir novos ataques terroristas contra Cuba – com isto sim Obama estará demonstrando vontade real de mudar a imagem dos EUA e inaugurar uma nova era de relações não apenas com Cuba, mas com toda a América Latina.

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