quarta-feira, 29 de abril de 2009

Eduardo Galeano, escritor uruguaio


Não foi a toa que o presidente da Venezuela Hugo Chávez presenteou o presidente dos Estados Unidos Barack Obama com o livro As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano. Além de ser pertinente a postura do governo americano ao longo da história no continente, Eduardo Galeano é um dos poucos escritores que escreve com profundidade sobre o continente. Sua obra é conhecidíssima em diversos países da América Latina e seus artigos são publicados em diversos jornais e revistas, mas muito pouco aqui no Brasil. O artigo de Emir Sader aborda um pouco esse assunto. Leia a seguir;


Carta Maior também dá Galeano de presente. Quem ganha são seus leitores. O Brasil é dos poucos países em que os artigos de Galeano não são publicados regularmente na imprensa – apesar de ele ser o melhor escritor latino-americano contemporâneo. De tempos em tempos, podemos ler seus textos em livros que os reúnem. Recolheremos ao longo deste ano textos dos três últimos – "De pernas pro ar", "Bocas do tempo" e "Espelhos" – todos publicados no Brasil pela LP&M. Hoje começamos com textos do primeiro deles.

Educando com o exemplo

A escola do mundo ao avesso é a mais democrática das instituições educativas. Não requer exame de admissão, não cobra matrícula e dita seus cursos, gratuitamente, a todos e em todas as partes, assim na terra como no céu: não é por nada que é filha do sistema que, pela primeira vez na história da humanidade, conquistou o poder universal.

Na escola do mundo ao avesso o chumbo aprende a flutuar e a cortiça a afundar. As cobras aprendem a voar e as nuvens a se arrastar pelos caminhos.

Os alunos

Dia após dia nega-se às crianças o direito de ser crianças. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.

Curso básico de injustiça

A publicidade manda consumir e a economia o proíbe. As ordens de consumo, obrigatórias para todos, mas impossíveis para a maioria, são convites ao delito. Sobre as contradições de nosso tempo as páginas policiais dos jornais ensinam mais do que as páginas de informação política e econômica.

Este mundo, que oferece o banquete a todos e fecha a porta no nariz de tantos, é ao mesmo tempo igualador e desigual: igualador nas idéias e nos costumes que impõe e desigual nas oportunidades que proporciona.

Pontos de vista /1

Do ponto de vista da coruja, do morcego, do boêmio e do ladrão, o crepúsculo é a hora do café-da-manhã.

A chuva é uma maldição para o turista e uma boa noticia para o camponês.

Do ponto de vista do nativo, pitoresco é o turista.

Do ponto de vista dos índios das ilhas do Mar do Caribe, Cristovão Colombo, com seu chapéu de penas e sua capa e veludo encarnado, era um papagaio de dimensões nunca vistas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Caiu a farsa da Globo sobre o conflito com o MST (leia o texto após ver o vídeo)

Para assistir melhor o vídeo, desligue a estação musical do blog que se encontra à esquerda da página.


Desde o início, a história estava mal contada. Um novo conflito agrário no interior do Pará, em que profissionais do jornalismo teriam sido usados como escudo humano pelo MST e mantidos em cárcere privado pelo movimento, em uma propriedade rural, cujo dono dificilmente tinha seu nome revelado. Quem conhecia e acompanhava um pouco da história desse conflito sabia que isso se tratava de uma farsa. A população, por sua vez, apesar de aceitar a criminalização do MST pela mídia e criticar a ação do movimento, via que a história estava mal contada.

As perguntas principais eram: Como o cinegrafista, utilizado como escudo humano - considero aqui a expressão em seu real sentido e significados -, teria conseguido filmar todas as imagens? Como aconteceu essa troca de tiros, se as imagens mostravam apenas os "capangas" de Daniel Dantas atirando? Como as equipes de reportagem tiveram acesso à fazenda se a via principal estava bloqueada pelo MST? Por que o nome de Daniel Dantas dificilmente era citado como dono da fazenda e por que as matérias não faziam uma associação entre o proprietário da fazenda e suas rapinagens?

Para completar, o que não explicavam e escondiam da população: as equipes de reportagem foram para a fazenda a convite dos proprietários e com alguns custos bancados - inclusive tendo sido transportados em uma aeronave de Daniel Dantas - como se fossem fazer aquelas típicas matérias recomendadas, tão comum em revistas de turismo, decoração, moda e Cia (isso sem falar na Veja e congêneres).

Além disso, por que a mídia considerava cárcere privado o bloqueio de uma via? E por que o bloqueio dessa via não foi impedimento para a entrada dos jornalistas e agora teria passado a ser para a saída dos mesmos? Quer dizer então que, quando bloqueamos uma via em protesto, estamos colocando em cárcere privado, os milhares de transeuntes que teriam que passar pela mesma e que ficam horas nos engarrafamentos que causamos com nossos legítimos protestos?

Pois bem, as dúvidas eram muitas. Não apenas para quem tem contato com a militância social, mas para a população em geral, que embora alguns concordassem nas críticas da mídia ao MST, viam que a história estava mal contada. Agora, porém, essa história mal contada começa a ruir e a farsa começa a aparecer.

Na tarde de ontem, o repórter da TV Liberal, afiliada da TV Globo, Victor Haor, depôs ao delegado de Polícia de Interior do Estado do Pará. Em seu depoimento, negou que os profissionais do jornalismo tenham sido usados como escudo humano pelos sem-terra, bem como desmentiu a versão - propagada pela Liberal, Globo e Cia. - de que teriam ficado em cárcere privado.

Está de parabéns o repórter - um trabalhador que foi obrigado a cumprir uma pauta recomendada, mas que não aceitou mais compactuar com essa farsa. Talvez tenha lhe voltado à mente o horror presenciado pela repórter Marisa Romão, que em 1996 foi testemunha ocular do Massacre de Eldorado dos Carajás e não aceitou participar da farsa montada pelos latifundiários e por Almir Gabriel, vivendo desde então sob ameaças de morte.

A consciência deve ter pesado, ou o peso de um falso testemunho deva ter influenciado. O certo é que Haor não aceitou participar até o fim de uma pauta encomendada, tal quais os milhares de crimes que são encomendados no interior do Pará. Uma pauta que mostra a pistolagem eletrônica praticada por alguns veículos de comunicação e que temos o dever de denunciar.

Max Costa

Jornalista/Belém

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Equador: Correa é favorito nas eleições de domingo

Agência Brasil de Fato

Além do presidente, no pleito também serão eleitos legisladores, prefeitos, governadores e vereadores.

Além do presidente, no pleito também serão eleitos legisladores, prefeitos, governadores e vereadores.

Os equatorianos irão às urnas, no próximo domingo, em um pleito no qual o presidente Rafael Correa é favorito. Em sondagem realizada por um dos principais institutos de pesquisa do país, ele aparece próximo de uma vitória tranquila, já em primeiro turno.

O presidente do instituto Cedatos-Gallup, Polibio Córdova, disse que o presidente esquerdista conserva ampla vantagem sobre seus principais rivais, o ex-presidente Lucio Gutiérrez e o magnata da banana Álvaro Noboa.

"Na pesquisa, se ratifica a alta probabilidade de que o presidente ganhe no primeiro turno, porque a diferença com o segundo e terceiro lugar será muito além dos 10 pontos mínimos", disse Córdova, cujas pesquisas em eleições anteriores se mostraram precisas.

Córdova não quis entrar em detalhes sobre os números antes da sua publicação oficial. O socialista Correa, ex-ministro da Economia, é muito popular entre a maioria pobre do país, graças a seus programas sociais e à sua retórica contra as "elites corruptas" do Equador.

Através da aprovação recente de uma reforma constitucional, foi instaurada a reeleição consecutiva por um só período. Assim, Correa, que inicialmente deveria concluir o mandato em 2011, poderá ser reeleito domingo próximo. O mandato vai até 2013, quando Correa poderá concorrer novamente.

Além do presidente, no pleito também serão eleitos legisladores, prefeitos, governadores e vereadores. Segundo pesquisas, Rafael Correa também deve assegurar maioria parlamentar para promover suas reformas socialistas.

MINISTRO JOAQUIM BARBOSA - DIZ O QUE O POVO TEM VONTADO DE DIZER

Para assistir melhor o vídeo, desligue a estação musical do blog que se encontra à esquerda da página.

Não é a primeira vez que esse "bate boca" acontece. No Supremo Tribunal Federal, o embróglio aconteceu entre os Ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes, este último presidente do STF. Para quem acompanha nossa mídia venal, o Presidente do Supremo tem espaço garantido nesses meios para destilar seu posicionamento reacionário em diversos temas. Geralmente de maneira retrógrados e reacionária. Na verdade faz aquilo que nossa elite atrasada adora. Acontece que o Ministro Joaquim Barbosa falou o que muitos brasileiros, conscientes deste país, tinham vontade de falar.

Prestem atenção e percebam como a máscara de Gilmar Mendes foi tirada para todos verem.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Altamiro Borges: TV Globo e jagunços disparam contra o MST


Por Altamiro Borges


O Fantástico, da TV Globo, disparou covardemente contra o MST na noite de domingo (19). Ao noticiar os violentos confrontos na Agropecuária Santa Bárbara, na região de Xinguara, no sul do Pará, ele acusou os sem-terra de terem invadido a fazenda, atirado em “seguranças” da empresa e de terem feito jornalistas de “reféns”, usando-os como “escudo humano” no meio de um tiroteio. Num espetáculo deprimente, a emissora exibiu cenas de sangue, agressões e humilhações. Só faltou acusar os líderes do MST de “terroristas” e “bandidos”. As imagens induziram a isto!

A TV Globo só não realçou que a fazenda ocupada desde fevereiro por 120 famílias de sem-terra pertence ao Banco Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, investigado por crimes financeiros e que se jacta da sua influência sobre a mídia. Também não explicou porque os quatro jornalistas chegaram ao local num avião fretado pela Santa Bárbara, o que poderia indicar a encenação de uma emboscada. E não esclareceu que os tiros diante das câmeras de TV foram disparados por jagunços contratados pela empresa — e não meros seguranças. Os jornalistas ficaram sempre atrás dos jagunços. Nem sequer entrevistaram os líderes do MST para entender as razões do conflito.

Uma emboscada televisionada

Diante desta abjeta manipulação, a coordenação do MST-Pará emitiu nota oficial, que também não foi divulgada pela emissora privada. Ela comprova que a violência neste final de semana foi provocada pelos jagunços de Daniel Dantas. “Os sem-terra não pretendiam fazer a ocupação da sede da fazenda e nem fizeram reféns. Nenhum jornalista nem a advogada do grupo foram feitos reféns pelos acampados”. Ela informa que na manhã do sábado, quando 20 sem-terra recolhiam palha para reforçar seus barracos, jagunços chegaram fortemente armados e passaram a provocar. “O trabalhador Djalme Ferreira foi obrigado a deitar no chão, enquanto os outros conseguiram fugir. Ele foi preso, humilhado e espancado pelos seguranças da fazenda de Daniel Dantas”.

No retorno ao acampamento, as sem-terra decidiram em assembléia realizar uma marcha. “Os jornalistas, que estavam na sede da Agropecuária Santa Bárbara, acompanharam o final da caminhada. Não havia a intenção de fazer os jornalistas de ‘escudo humano’, até porque os trabalhadores não sabiam como seriam recebidos pelos seguranças. Aliás, os jornalistas que estavam no local foram levados de avião pela Santa Bárbara, o que mostra que ela tinha tramado uma emboscada”. A própria Polícia Militar negou as notícias sobre “reféns” e “escudo humano”.

Segundo a direção estadual, “os trabalhadores do MST não estavam armados e levavam apenas instrumentos de trabalho e bandeiras do movimento. Apenas um posseiro, que vive em outro acampamento da região, estava com uma espingarda. Quando a marcha chegou à guarita dos seguranças, os sem-terra foram recebidos à bala e saíram correndo — como mostram as imagens veiculadas pela TV Globo. Não houve um tiroteio, mas uma tentativa de massacre. Nove trabalhadores rurais ficaram feridos pelos seguranças da Agropecuária Santa Bárbara. O sem-terra Valdecir Nunes Castro, conhecido como Índio, está em estado grave. Levou quatro tiros. Depois de atirar contra os sem-terra, os seguranças ainda fizeram três reféns”.

Queda de audiência e de credibilidade

Mais esta manipulação grosseira da TV Globo, desta vez a serviço do banqueiro Daniel Dantas, até poderia motivar a abertura de processo jurídico. Os sem-terra foram exibidos como bandidos, enquanto os verdadeiros bandidos permanecem em liberdade — inclusive com a ajuda de habeas-corpus do STF.

A edição do Fantástico, “a revista eletrônica da Globo”, foi totalmente distorcida, um exemplo do pior jornalismo. Isto talvez ajude a explicar a queda constante de audiência deste programa, que perde credibilidade a cada semana. Neste mesmo domingo, ele teve o pior Ibope desde que foi levado ao ar pela primeira vez em 1973. Alcançou apenas 19 pontos em São Paulo.

* Altamiro Borges é jornalista, editor da revista Debate Sindical e autor do livro As encruzilhadas do sindicalismo (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).

sábado, 18 de abril de 2009

Confirmado: 1ª Conferência Nacional de Comunicação em dezembro de 2009


O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea "a", da Constituição,

D E C R E T A:
Art. 1o Fica convocada a 1a Conferência Nacional de Comunicação - CONFECOM, a se realizar de 1o a 3 dezembro de 2009, em Brasília, após concluídas as etapas regionais, sob a coordenação do Ministério das Comunicações, que desenvolverá os seus trabalhos com o tema: "Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital".

Art. 2o A 1a CONFECOM será presidida pelo Ministro de Estado das Comunicações, ou por quem este indicar, e terá a participação de delegados representantes da sociedade civil, eleitos em conferências estaduais e distrital, e de delegados representantes do poder público.

Parágrafo único. O Ministro de Estado das Comunicações contará com a colaboração direta dos Ministros de Estado Chefes da Secretaria-Geral e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, na coordenação dos trabalhos para a realização da Conferência.

Art. 3o O Ministro de Estado das Comunicações constituirá, mediante portaria, comissão organizadora com vistas à elaboração do regimento interno da 1a CONFECOM, composta por representantes da sociedade e do poder público.

Parágrafo único. O regimento interno de que trata o caput disporá sobre a organização e o funcionamento da 1a CONFECOM nas suas etapas municipal, estadual, distrital e nacional, inclusive sobre o processo democrático de escolha de seus delegados, e será editado mediante portaria do Ministro de Estado das Comunicações.

Art. 4o As despesas com a realização da 1a CONFECOM correrão por conta dos recursos orçamentários do Ministério das Comunicações. Art. 5o Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 16 de abril de 2009; 188o da Independência e 121o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Debate sobre as Esquerdas na América Latina


Muito se questiona se os governos atuais da América Latina, pelo menos em sua maioria, são de esquerda ou não. São revolucionários ou reformadores?

O que se quer saber, na verdade, é se de fato alguns principais conceitos socialistas ou marxistas são implementados nestes países na tentativa de subverter a ordem injusta de exploração da classe trabalhadora que é de fato quem produz a riqueza de qualquer país. Ou ainda, se pelo menos caminham em direção a estes. Argentina, Paraguai, Bolívia, Brasil, Equador, Venezuela, Nicarágua, El Salvador, Uruguai e Chile são os países que se alinham com este pensamento ou não? México também era para se ter um governo de esquerda, não fosse a fraude eleitoral perpetrada pelo governo anterior com o sistema judiciário daquele país. Face à estas preocupações, de saber para onde vai a esquerda na América Latina, em São Paulo, Emir Sader e José Reinaldo Carvalho estarão participando de um debate chamado "Os caminhos das esquerdas na América Latina". O debate acontece hoje a noite. As informações copilei do blog do Miro.

Veja abaixo os detalhes:

“Os caminhos das esquerdas na América Latina”

Debate “Os caminhos das esquerdas na América Latina” Dia 16 de abril de 2009, às 19h Rua Rego Freitas, 192 - República – São Paulo-SP Com:

Emir Sader, secretário-geral do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso)

José Reinaldo Carvalho, diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Como é que fica Cuba, Sr. Obama?


A criação da Cúpula das Américas tinha o objetivo de discutir uma agenda comum no que tange o comércio entre os países da América. Apenas Cuba ficou de fora. Obviamente por imposição dos Estados Unidos. No próximo dia 17 estarão se reunindo boa parte, se não todos, os chefes de Estados dos diversos países que compõe o continente Americano em Trinidad e Tobago. Um país ilha, que fica no caribe, próximo à Venezuela. Apesar de Cuba não estar presente, provavelmente será a grande questão do encontro. Será que o império norte americano retrocederá em sua impáfia e colocará na mesa seu próprio revisionismo em relação Cuba? Será que o fim do embargo econômico está a caminho? Sabemos que não será de imediato, já que para que isso ocorra, há necessidade de aprovação do congresso americano. Mas qualquer gesto neste direção, e parece que o governo Obama tem tomado, será um grande sinal.

O artigo de Emir Sader é muito interessante em relação a isto. Acompanhe abaixo;



"What about Cuba, Mr. Obama?"


Ilusão de Obama se acredita que será recebido de outra maneira na reunião de Trinidad-Tobago. Ele pode falar da crise, da nova postura do seu governo diante do Iraque e do Irã, de tanta coisa, mas não conseguirá fazer com que sua atitude na relação com Cuba deixe de ser central.

A posição norte-americana sobre Cuba representa, na sua síntese, a posição imperial dos EUA em relação à América Latina. Quando sentiu que estava diante de um processo realmente revolucionário, que não apenas derrubava uma das tantas ditaduras que Washington apoiava na região, mas que o novo poder em Havana reivindicava de forma radical a soberania do país, como avançava na construção de uma sociedade justa, começando pela reforma agrária.

Até ali movimentos anti-ditatoriais e/ou nacionalistas sempre tinham sido derrubados ou cooptados. Mesmo os mais fortes, como os de Perón e de Getúlio ou até a Revolução Boliviana de 1952. Quando se deu conta que perdia o controle sobre um país que havia sido sua mais importante neocolônia, os EUA iniciaram uma ofensiva para tentar impedir que o poder revolucionário se consolidasse.

Valeram-se os EUA de todos os instrumentos de que podiam lançar mão: dos ataques com fósforo branco – iniciados antes mesmo da vitória de Fidel e seus companheiros, sobre territórios liberados da região oriental da Ilha -, a atentados ao líder da Revolução, ao envio de comandos terroristas, ao armamento da oposição direitista, ao armamento de grupos contrarrevolucionários na cordilheira central do país, ao e à calunia informativa e à tentativa de bloqueio econômico e diplomático.

Valiam-se os EUA de uma máxima segundo a qual “Sem cota, não há país”, isto é, sem que o poderoso vizinho do norte comprasse a safra de açúcar, o país não sobreviveria. A burguesia cubana fechava suas casas e ia aos EUA como quem vai de férias, esperando que o novo governo caísse, sob o impacto do boicote estadunidense.

Paralelamente, Washington desatava a maior ofensiva contra um país no continente, que incluiu a tentativa de invasão, em 1961 e o bloqueio naval em 1962. Ao mesmo tempo os EUA levaram a OEA a decretar o isolamento de Cuba no continente, com a ruptura de relações de todos os governos com a Ilha – menos o México, que manteve apenas relações diplomáticas -, fechando assim o cerco econômico, ao mesmo tempo que Washington dividia a cota de açúcar cubanos entre os países subservientes.

Passaram-se mais de 4 décadas e 10 presidentes norte-americanos, e Cuba sobreviveu e rompeu de fato o bloqueio, tanto em relação aos outros países do continente – Costa Rica, o último, acabou de restabelecer relações com Cuba -, como o próprio intercâmbio – e turismo, cultural, comercial – foi sendo restabelecido. Cuba manteve sua dignidade e sua soberania, ao mesmo tempo que construía a sociedade mais justa do mundo, para o que foi indispensável afetar profundamente os interesses dos EUA no país.

Foi isso que os EUA nunca perdoaram em Cuba – sua independência e seu papel de exemplo, ao romper com a dominação imperialista sobre a Ilha e construir os embriões de um novo tipo de sociedade, o socialismo. Cuba propõe a normalização de relações, sem nem sequer requerer a devolução de Guantánamo, como é absolutamente justo que ocorra, apenas que cada país respeite o tipo de sociedade do outro e tenham relações recíprocas de igualdade e respeito.

O problema para Obama é que, se quer provar nos fatos que tem uma atitude distinta com a América Latina, terá que prová-lo pelo término do bloqueio e a normalização de relações com Cuba. Pelo caráter que tem de sobrevivência da guerra fria e de expressão mais acabada da prepotência imperial nas relações com o continente, Obama não poderá ficar apenas na flexibilização da circulação de pessoas, do envio de dólares, do comércio já existente, mas terá que avançar para reuniões diretas com os dirigentes cubanos e o restabelecimento do último governo da América que resiste a ter relações normais com Cuba.

Da resposta à saudação com que todos receberão Obama em Trinidad-Tobago, dependerá a abertura de um novo período nas conturbadas, violentas e até aqui prepotentes relações dos EUA com a América Latina.

domingo, 12 de abril de 2009

"O mundo segundo a Monsanto"


Pesquisadora francesa poder da maior multinacional de sementes: corrupção de governos, produção armas químicas, controle de alimentos em nível global

Pesquisadora francesa poder da maior multinacional de sementes: corrupção de governos, produção armas químicas, controle de alimentos em nível global

Agencia Brasil de Fato

Darío Aranda,

Argentina


Em entrevista jornal argentino Página 12, a escritora e documentarista francesa, Marie-Monique Robin apresenta seu novo livro, fruto de três anos de profundas investigações sobre o poder de influência da multinacional sobre Governos e o projeto de controle total da produção de alimentos em nível global. Corrupção, produção de armas químicas e controle sobre do que você come são algumas das denuncias feitas pela francesa.


Como define a Monsanto?

Monsanto é uma empresa deliquente. E digo por que há provas concretas disso. Foi muitas vezes condenada por suas atividades industriais, por exemplo o caso dos PCB, produto que agora está proibido, mas que segue contaminando o planeta. Durante 50 anos o PCB esteve nos transformadores de energia. E a Monsanto, que foi condenada por isso, sabia que eram produtos muito tóxicos, mas escondeu informação e nunca disse nada. E é a mesma história com outros dois herbicidas produzidos por Monsanto, que formaram o coquetel chamado “agente laranja” utilizado na guerra do Vietnã, e também sabia que era muito tóxico e fez o mesmo. E mais, manipulou estudos para esconder a relação entre as dioxinas e o câncer. É uma prática recorrente na Monsanto. Muitos dizem que isto é o passado, mas não é assim, é uma forma de obter lucros que ainda hoje está vigente. A empresa nunca aceitou seu passado nem aceitou responsabilidades. Sempre tratou de negar tudo. É uma linha de conduta, e hoje acontece o mesmo com os transgênicos e o Roundup.

Quais são as práticas comuns da Monsanto na ordem global?

Tem práticas comuns em todos os países onde atua. Monsanto esconde dados sobre seus produtos, mas não só isso, também mente e falsifica estudos sobre seus produtos. Outra particularidade que se repete na Monsanto é que cada vez que cientistas independentes tratam de fazer seu trabalho a fundo com os transgênicos, têm pressões ou perdem seus trabalhos. Isso também acontece nos organismos dos Estados Unidos como são a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) ou EPA (Agência de Proteção Ambiental). Monsanto também é sinônimo de corrupção. Dois exemplos claros e provados são a tentativa de suborno no Canadá, que originou uma sessão especial do Senado canadense, quando se tratava a aprovação do hormônio de crescimento leiteiro. E o outro caso é na Indonésia, onde a Monsanto foi condenada porque corrompeu a cem altos funcionários para por no mercado seu algodão transgênico. Não duvidamos que exista mais casos de corrupção onde a Monsanto é quem corrompe.

Você também afirma que a modalidade de “portas giratórias” é uma prática habitual.

Sem dúvida. Na história da Monsanto sempre está presente o que nos Estados Unidos se chama “a porta giratória”. Um exemplo claro: o texto de regulamentação que regula os transgênicos nos Estados Unidos foi publicado em 1992 pela FDA, a agência norteamericana encarregada da seguridade de alimentos e medicamentos. A qual se supõe é muito séria, ao menos sempre eu pensava isso, até antes deste trabalho. Quando diziam que um produto havia sido aprovado pela FDA pensava que era seguro. Agora sei que não é assim. No '92, o texto da FDA foi redigido por Michael Taylor, advogado da Monsanto que ingressou na FDA para fazer esse texto e logo foi vice-presidente da Monsanto. Um exemplo muito claro de “porta giratória”. Há muitos exemplos, em todo o mundo.

Monsanto fabricou o agente laranja, PCB e glifosato. E tem condenações por publicidade enganosa. Por que tem tão boa reputação?

Por falta de trabalho sério dos jornalistas e a cumplicidade dos políticos. Em todo o mundo é igual.

Por que a Monsanto não fala?

Tentou chamá-los?

Sim, mas não aceitaram perguntas.

Também é o mesmo em todo o mundo. Ante qualquer jornalista crítico, a Monsanto tem uma só política: “Não comentes” (sem comentários).

O que significa a Monsanto no mercado mundial de alimentos?

A meta da Monsanto é controlar a cadeia alimentar. Os transgênicos são um meio para essa meta. E as patentes uma forma de conseguí-lo. A primeira etapa da “revolução verde” já ficou para trás, foi a de plantas de alto rendimento com utilização de pesticidas e a contaminação ambiental. Agora estamos na segunda etapa dessa “revolução”, onde a chave é fazer valer as patentes sobre os alimentos. Isto não tem nada a ver com a idéia de alimentar ao mundo, como se publicou em seu momento. A única finalidade é aumentar os lucros das grandes corporações. Monsanto ganha em tudo. Ela vende o pacote tecnológico completo, sementes patenteadas e o herbicida obrigatório para essa semente. Monsanto te faz firmar um contrato pelo qual te proíbe conservar sementes e te obriga a comprar Roundup, não se pode utilizar um glifosato genérico. Neste modelo Monsanto ganha em tudo, e é tudo ao contrário da segurança alimentar. De passagem, recordemos, que a soja transgênica que se cultiva aqui não é para alimentar aos argentinos, é para alimentar aos porcos europeus. E o que acontecerá na Argentina quando as carnes da Europa terem que ser etiquetadas sendo que foram alimentadas com soja transgênica? Se deixará de comprar carnes desse tipo e a Argentina também receberá o golpe, porque lhe abaixará a demanda de soja.

Esteve na Argentina, Brasil e Paraguai. Que particularidades encontrou na região?

Deve-se recordar que a Monsanto entrou aqui graças ao governo de Carlos Menem, que permitiu que a soja transgênica entrasse sem nenhum estudo. Foi o primeiro país da América Latina. Depois da Argentina organizou-se um contrabando de sementes transgênicas, de grandes produtores, para o Paraguai e o Brasil, que se viram obrigados a legalizá-las porque eram cultivos que depois se exportavam. E depois veio a Monsanto a reclamar suas regalias. Foi incrível como se expandiu a soja transgênica na região, e em tão poucos anos. É um caso único no mundo.

Na década de 90 a Argentina era denominada como aluno modelo do FMI. Hoje, com 17 milhões de hectares com soja transgênica e a utilização de 168 milhões de litros só de glifosato, pode-se dizer que a Argentina é um aluno modelo dos agronegócios?

Sim, claro. A Argentina adotou o modelo Monsanto em tempo recorde, é um caso pragmático. Mas também houve alguns problemas com o aluno modelo. Como as sementes transgênicas são patenteadas, Monsanto tem o direito de propriedade intelectual. Isso significa, como o vi no Canadá e Estados Unidos, que lhes fazem firmar aos produtores um contrato nos quais se comprometem a não conservar parte de suas colheitas para ressemear no próximo ano, o que fazem os agricultores de todo o mundo. A Monsanto o denuncia como uma violação de sua patente. Então a Monsanto envia a “polícia de genes”, que é algo incrível, detetives privados que entram nos campos, tomam amostras , verificam se é transgênico e se o agricultor tem comprado suas sementes. Se não as tem comprado, realizam juízos e a Monsanto ganha. É parte de uma estratégia global: a Monsanto controla a maioria das empresas sementeiras e patenteia as sementes, exigindo que cada campesino compre suas sementes. O que aconteceu aqui é que a lei argentina não proíbe guardar sementes de uma colheita e utilizá-las na próxima semeadura. Em um primeiro momento a Monsanto disse que não iria pedir regalias, e deu sementes baratas e Roundup barato. Mas em 2005 começou a pedir regalias, rompeu o acordo inicial e por isso mantém um enfrentamento judicial com seu aluno preferido.

O Roundup tem um papel protagonista neste modelo. Muitas comunidades campesinas e indígenas denunciam seus efeitos, mas existem poucas proibições.

É um impacto incrivelmente silenciado. Ninguém pode negar o que trazem as esterilizações com este herbicida, totalmente nocivo. Tenho a segurança de que será proibido em algum momento, como foi o PCB, estou segura de que chegará este momento. De fato na Dinamarca já foi proibido por sua alta toxicidade. É urgente analisar o perigo dos agroquímicos e os OGM (Organismos Geneticamente Modificados).

Contudo, as grandes empresas do setor prometem há décadas que com transgênicos e agrotóxicos se conseguirá aumentar a produção, e assim acabar com a fome do mundo.

A Argentina é o melhor exemplo dessa mentira. Como tem ido com a sojização do país? Tem se perdido na produção de outros alimentos básicos e ainda há fome. Este modelo é o modelo do monocultivo, que acaba co outros cultivos vitais. É uma transformação muito profunda da agricultura, que leva diretamente à perda da soberania alimentar, e lamentavelmente já não depende de um governo para poder revertê-lo.

Por que ao processo agrário atual você o chama “a ditadura da soja”?

É uma ditadura no sentido de um poder totalitário, que abrange tudo. Deve-se ter claro que quem controla as sementes controla a comida e controla a vida. Nesse sentido, a Monsanto tem um poder totalitário. É tão claro que até a Syngenta, outra grande empresa do setor e competidora da Monsanto, chamou ao Brasil, Paraguai e Argentina “as repúblicas unidas da soja”. Estamos frente a um programa político com finalidades muito claras. Uma pergunta simples o demonstra: quem decide o que se vai cultivar na Argentina? Não o decide nem o governo nem os produtores, o decide a Monsanto. A multinacional decide o que se semeará, sem importar aos governos, o decide a empresa. E, para pior, a segunda onda de transgênicos vai ser muito forte, com um modelo de agrocombustíveis que acarretará mais monocultivos. E, a esta altura, já está claro que o monocultivo é perda de biodiversidade e é todo contrário à segurança alimentar. Já não há dúvidas de que o monocultivo, seja o da soja ou para biodiesel, é o caminho para a fome.

Qual é o papel da ciência no modelo de agronegócios, onde a Monsanto é só sua cara mais famosa?

Antes pensava que quando um estudo era publicado em uma prestigiosa revista científica, se tratava de um trabalho sério. Mas não. As condições em que se publicam alguns estudos são tristes, com empresas como Monsanto pressionando aos diretores das revistas. No tema transgênico fica muito claro que é quase impossível realizar estudos do tema. Em muitas partes do mundo, os Estados Unidos ou a Argentina, os laboratórios de investigações são pagos por grandes empresas. E quando o tema é sementes, transgênicos ou agroquímicos, a Monsanto sempre está presente e sempre condiciona as investigações.

Os cientistas tem temor ou são cúmplices?

Ambas as coisas. O temor e a cumplicidade estão presentes nos laboratórios do mundo. No livro deixo claro que há cientistas, em todos os países, cuja única função é legitimar o trabalho da empresa.

Qual é o papel dos governos para que empresas como Monsanto avancem?

Os governos são os melhores propagandistas dos OGM (Organismos Geneticamente Modificados). Realizam um trabalho de lobby incrível. A Monsanto leva seus estudos, sua informação, suas revistas e fotos, tudo muito lindo. E diz aos políticos que não haverá contaminação e salvará ao mundo. E os políticos entram na dela. E também há pressões. Deputados franceses tem denunciado publicamente as pressões da Monsanto, até reconheceram que a companhia contatou a cada um dos 500 deputados para que legislem segundo os interesses da empresa.

E o papel dos meios de comunicação?

Me dá muita pena porque sou jornalista e acredito no que fazemos, acredito que é uma profissão com um papel muito importante na democracia, mas há uma grande manipulação dos meios. Em todo o referido aos transgênicos, a imprensa não trabalha seriamente. Os meios olham a propaganda da Monsanto e a publicam sem questionamentos, como se fossem empregados da empresa. Também é público que a Monsanto convida a comer aos periodistas, lhes dá regalias, os leva de viagem a Saint Louis (onde está sua sede central); os jornalistas vão muito contentes, passeiam pelos laboratórios, não perguntam nada e vão. Assim funcionam os meios com a Monsanto. Também registrei casos nos quais a Monsanto busca, em cada meio de comunicação, um defensor. Estabelece contato com ele e consegue opiniões favoráveis. Não sei se há corrupção, mas sei que a Monsanto consegue seu objetivo. Na Argentina é claro como atua, ao ver alguns artigos de suplementos rurais se vê que em lugar de artigos jornalísticos são publicidades da Monsanto. Não pareceria que um jornalista o escreveu, foi diretamente a companhia.

Que avaliação faz do enfrentamento entre o governo e as entidades patronais do agronegócio?

Em 2005 entrevistei a Eduardo Buzzi, estava furioso pelo assunto das regalias reclamadas pela Monsanto. Falava dos enganos da Monsanto. E, além disso, falava dos problemas que trazia a soja, até me pôs em contato com pequenos produtores que me falaram das mentiras da Monsanto, da resistência que mostravam as ervas daninhas, que tinha que utilizar mais herbicidas e que os campos ficavam como terra morta. Buzzi sabia tudo isso e me dizia que questionava esse modelo, afirmava que a soja trazia a destruição da agricultura familiar e me dizia que a Federação Agrária representava esse setor, que enfrentava aos pools de semeadura e às grandes empresas. E Buzzi denunciava muito este modelo, muito bom discurso. Mas agora não é o que acontece. Nunca o voltei a ver e gostaria de perguntar-lhe o que lhe aconteceu que agora se une com as entidades mais grandes, me estranha muito a mudança que mostra. E acima de Buzzi está com Aapresid (Associação Argentina de Produtores de Semeadura Direta – integrada por todas as grandes empresas do setor, incluindo as sementes e agroquímicas), que é a que mais ganha com todo esse modelo, e que apareceu pouco neste conflito. Aapresid manipula tudo e está com os grandes sojeiros, que não são agricultores e que até promovem um modelo sem agricultores. Então não entendo como a Federação Agrária disse representar produtores pequenos e está com a Aapresid. O que a Federação Agrária é muito estranho, não se entende.

E o papel do governo?

As retenções podem ser que frenem algo do processo de sojização. Mas não é uma solução frente a um modelo tão agressivo. A solução tem que ser algo muito mais radical e não a curto prazo. Claro que a tentação dos governos é grande, a soja traz bons rendimentos, mas deve-se pensar a longo prazo. Não há soluções simples e de curto prazo para um modelo que tira campesinos de suas terras e, mediante esterilizações, contamina a água, a terra e a população.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Renato Rovai: Conferência de Comunicação precisa ter muito peso político


Da redação Adital

Editor da revista Fórum e mestrando em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), o jornalista Renato Rovai foi um dos palestrantes do "Seminário Boas Ideias em Comunicação - Experiências e Sustentabilidade das Mídias Independentes", realizado de 2 a 4 de abril em Fortaleza (CE).


Aos comunicadores populares que participaram do evento, ele falou sobre as expectativas em torno da Conferência Nacional de Comunicação. Nesta entrevista, Rovai aprofunda mais o tema, falando acerca das discussões que caminham até a construção da Conferência.

Adital - Como você está participando nas discussões para a construção da Conferência Nacional de Comunicação?


Renato Rovai - Na verdade, a gente vem participando dessas discussões há alguns bons anos. Isso é bandeira de luta e está na pauta das reivindicações dos movimentos sociais muito antes do Governo Lula, por exemplo. A gente já vem trabalhando na necessidade de se fazer um grande debate nacional e discutir o marco das comunicações na dinâmica das relações entre Estado, sociedade e empresariado nacional desse segmento.

Agora a grande novidade é que o governo se dispôs a convocar essa conferência. Não publicou o edital, mas já anunciou uma data, que é 2 e 3 de dezembro. E aí é evidente que esse debate está se espalhando também por estados e por municípios.

Acho que a gente, até com base nas reflexões que foram feitas aqui (no seminário) tem que estar motivado para essa conferência, tem que colocar peso político nela, tem que tentar trabalhar a organização, mas não pode achar que ela é um fim em si própria. Inclusive pelos aspectos que foram colocados em relação à Conferência da Bahia (participantes criticaram a metodologia e a falta de transparência no encaminhamento das propostas da conferência).

Fazer a conferência e conseguir aprovar resultados interessantes não significa que eles serão implementados. Não só porque o "lado de lá" não vai deixar implementar, mas porque, às vezes, a gente não consegue organização suficiente para trabalhar essa construção depois do relatório realizado, produzido. Eu acho que esse é um momento especial, mas a gente tem que ter toda a dimensão de que o fato de ele ser especial não garante que ele tenha os resultados que a gente imagina que ele possa vir a ter.

Adital - O Governo estabeleceu mais alguns pontos da Conferência, como representatividade, eixos de discussão?

Renato Rovai - O tema principal da conferência é "Comunicação: Direito e Cidadania na Era Digital". O Governo determinou que vai ter um espaço, um período para as conferências municipais, outro para as estaduais e, em dezembro, começa a conferência final, quando os delegados eleitos nas municipais e estaduais vão estar se reunindo em Brasília. Mas não foi publicado o edital. Até a construção do edital já está virando um drama. Desde o anúncio, que foi no Fórum Social Mundial em Belém, que aconteceu no final de janeiro, até agora, o Governo não conseguiu publicar o edital. Tem uma disputa pelo edital.

E essa disputa não se dá apenas com o "lado de lá", mas também dentro dos movimentos das comunicações existem muitas diferenças.

Há pessoas que acham que a conferência tem que caminhar mais para um lado, tem outras que acham que é para outro. Isso é educativo. Eu não tinha dúvida que isso ia acontecer. Sempre disse que, na hora que a conferência fosse convocada, as nossas diferenças iriam aparecer de forma mais ampla. Isso é positivo, democracia é assim mesmo, a gente tem que ter paciência, tranqüilidade para construir nessas diferenças alguns consensos. E essa conferência tem lados. A gente não pode achar que ela é Conferencia de um único ângulo. Tem lados e não são poucos.

Não é só um lado do empresariado. No empresariado você tem alguns lados. A própria mídia tradicional tem hoje interesses divergentes. Os problemas que uma Editora Abril vive, por exemplo, que é uma empresa vinculada ao jornalismo impresso, são diferentes, dos que uma organização como a Globo vive. Você tem choques de interesses até nesses setores. Do lado de cá também. O movimento de comunicação não é um movimento só de jornalistas, mas tem gente que entende que ele deva ser. Tem gente que acha que se for discutir a conferência, os protagonistas principais têm que ser os jornalistas. É um erro. Mas tem gente que acha importante demarcar isso.

Adital - Fica então o desafio para a conferência de envolver outros setores da sociedade?

Renato Rovai - Cada grupo, cada núcleo, vai ter suas estratégias pré-definidas em debates, às vezes construídas na prática, na luta, como a gente diz. A concepção que eu vou trabalhar nessa conferência, por exemplo, é que ela seja a mais ampla possível, que ela não seja restrita só aos grupos que trabalham o debate da comunicação. Para mim já é muito bom que esse debate da comunicação avance em outros segmentos, outros setores.

Adital - Que linhas de debate não podem ficar de fora da conferência?

Renato Rovai - A concentração dos meios de comunicação no Brasil, por mais que a gente saiba que é um debate difícil de ser realizado, vai ter que estar presente. Faz parte da pauta de luta histórica dos movimentos das comunicações. Ou seja, discutir a propriedade cruzada, se quem tem um canal de televisão pode ter um de rádio na cidade. Se as concessões devem passar por critério de renovação, como seriam esses critérios, que fiscalização devem ter, que regulamentação devem ter os veículos que são frutos de concessões públicas. Se uma das atribuições da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) deve ser a de fiscalizar essas concessões ou não, por exemplo. Isso é uma demanda.

Outra é a questão do conteúdo. A partir do momento em que você estabelece que a lógica é de concessão pública para os veículos de rádio e tevê, por exemplo, qual a obrigação que esses produtos têm com o que eles produzem no seu conteúdo, com o conteúdo que eles divulgam? E como trabalhar a difusão desse conteúdo, construindo meios para que a sociedade possa fiscalizar e verificar se eles levam em consideração os princípios democráticos e cidadãos que a sociedade definiu pra ela?

Por outro lado, o financiamento é fundamental de se discutir. Como é que você consegue democratizar o acesso aos recursos do Estado, e mesmo os do setor privado, no sentido de que a democratização também passa pelo financiamento? O governo federal investe R$ 1 bilhão de forma direta em publicidade e um R$ 1 bilhão em patrocínio. É muito dinheiro. O mercado brasileiro de publicidade é de R$ 25 bilhões, então 4 % é só do Governo Federal.

Mas você tem pelo menos mais um bilhão de reais dos governos estaduais e municipais. Só o Governo de São Paulo tem uma verba de comunicação de R$ 313 milhões. Às vezes a gente não entende como é que certas pessoas são tão generosas com certos governos. Mas na hora que você olha a conta da Secom (Secretaria de Comunicação), você percebe. R$ 313 milhões é mais do que o Governo Federal tem de recursos para aportar na publicidade, sem contar as empresas estatais. Porque a verba do Governo Federal é de R$ 250 milhões. A das estatais é R$ 750 milhões. Então o governo (José) Serra (em São Paulo) tem mais recursos que o Governo Federal pra aplicar em publicidade direta.

Um governo como o da Ieda Crucis (no Rio Grande do Sul), que passa por uma série de críticas, mas mesmo assim consegue se segurar no processo regional. Imagina, a mídia é muito mais barata no Rio Grande do Sul. Você comprar uma página no Zero Hora não tem nada a ver com comprar uma página na Folha (de S. Paulo) ou no Globo. O orçamento de publicidade da Ieda Crucis é de R$ 93 milhões, quase um terço do governo do maior estado da federação, que é São Paulo. Essas verbas têm que ser debatidas.

Há muitos outros eixos. Eu acho que a gente precisa criar um novo marco regulatório das comunicações. Precisa discutir inclusive a construção de controles sociais não só na concessão, no conteúdo, mas também no plano dos conselhos estaduais e municipais. A gente não sabe ainda quantos temas vão se tornar importantes nesse processo, mas tem alguns que são históricos.

As entrevistas do projeto "Boas Ideias em Comunicação" são produzidas com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

quarta-feira, 8 de abril de 2009

De novo o Grupo Folha


Não é atual, mas é emblemático. Não dá pra deixar passar em branco. Já não bastasse a canalhice da "ditabranda" agora mais uma pisada da bola da Folha de São Paulo.
Acompanhe.


Por Carta Maior


Jornalista denuncia má fé da Folha e armadilha contra Dilma

Jornalista denuncia má fé do jornal Folha de S.Paulo em matéria que tenta envolver a ministra Dilma Rousseff em um suposto plano para sequestrar Delfim Neto durante a ditadura militar. "Chocou-me a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário", denuncia Antonio Roberto Espinosa.


O jornalista Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), autor de "Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe", encaminhou uma carta à redação da Folha de São Paulo, protestando contra a edição da entrevista por telefone que concedeu ao jornal. Segundo ele, a Folha preparou uma “armadilha” para a ministra Dilma Rousseff usando uma entrevista que concedeu a uma das suas repóteres da sucursal de Brasília. Na carta que encaminhou à redação, ele denuncia a má fé dos editores do jornal. Segue a íntegra da correspondência:

Prezados senhores,

Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:

1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;

2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;

3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).

Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas). A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:

1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;

2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;

3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;

4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;

5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;

6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.

Osasco, 5 de abril de 2009

Antonio Roberto Espinosa

Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Mídia oculta protestos de trabalhadores


Por Altamiro Borges

No livro “Caminhos para uma comunicação democrática”, editado pelo jornal Le Monde Diplomatique, o sociólogo espanhol Manuel Castells, renomado estudioso da área de comunicação, afirma: “A maior influência que a mídia exerce sobre a política não é proveniente do que é publicado, mas do que não o é, de tudo o que permanece oculto, que passa despercebido. A atividade midiática repousa sobre uma dicotomia: algo existe no pensamento do público se está presente na mídia. O seu poder fundamental reside, portanto, na sua capacidade de ocultar, de mascarar, de omitir”.

O raciocínio de Castells se encaixa perfeitamente à cobertura que a mídia deu ao Dia Nacional de Luta e Mobilizações em Defesa do Emprego e dos Direitos, nesta segunda-feira (30). Na fase dos preparativos, os jornalões e as emissoras de televisão simplesmente não deram qualquer destaque a esta iniciativa histórica, que uniu as oito centrais sindicais e os principais movimentos sociais – como UNE e MST. Nem sequer uma linha do manifesto unitário, que exigiu “emprego e salário, manutenção e ampliação dos direitos, redução dos juros e da jornada de trabalho sem redução salarial, reforma agrária e investimentos em políticas sociais”, foi divulgada à sociedade.

A inutilidade de Sardenberg

A omissão foi ainda mais criminosa no dia do protesto. Ocorreram manifestações em 20 capitais e em várias cidades de porte. Cálculo parcial aponta que mais de 80 mil pessoas participaram da jornada de lutas em todo o país. Na capital paulista, 20 mil pessoas andaram vários quilômetros, realizando paradas em frente à sede da Federação das Indústrias (Fiesp), do Banco Central e da Bolsa de Valores. Ocorreram também bloqueios de estradas promovidos pelo MST, paralisações de escolas organizadas pelas entidades estudantis, ocupações de prédios públicos. Nada disso foi motivo de maior destaque na mídia hegemônica, que preferiu “ocultar, mascarar e omitir”.

Nos jornalões, o ato teve poucas linhas e nenhuma manchete. Virou nota nas páginas internas. Já as emissoras de televisão, que são concessão pública, preferiram desqualificar o protesto. Quase em uníssono, todas criticaram a manifestação em São Paulo, que “congestionou o trânsito”. Seus comentaristas regiamente pagos – talvez de ressaca pela prisão relâmpago de Eliana Tranchesi, a dona da ilícita casa de luxo Daslu – fizeram silêncio ou atacaram os organizadores do ato. Carlos Sardenberg, recentemente promovido na TV Globo, ousou afirmar que “o protesto foi inútil”. Se o que sai na TV é o que realmente existiu, o contundente protesto de 30 de março não existiu.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O Colapso do Neoliberalismo


Não é de hoje que se anuncia o colapso do neoliberalismo. O grande problema é que ninguém escutava ou não entendia como isso poderia ocorrer. Este colapso, como alguns economistas marxistas tem conceituado essa crise capitalista pegou muita gente de surpresa. Segundo alguns deles nem a esquerda acreditava muito nesta hipótese. Então, como uma força mágica, ventos de esperanças varrem o mundo na tentativa de entender melhor o socialismo e suas nuances.

Nos Estados Unidos, referência política do pensamento neoliberal, surgem debates para entender as diversas linhas de pensamentos marxistas.

O texto abaixo foi compilado do site da agência de notícias Carta Maior. Achei muito interessante este debate, apesar de parecer que eles querem reiventar a roda. (heheheheh)




Esquerda dos EUA debate: como reimaginar o socialismo?

A revista The Nation promoveu um fórum intitulado "Reimaginando o socialismo", para debater a situação da esquerda no mundo e suas perspectivas diante da falência do neoliberalismo. A Carta Maior publica algumas das contribuições deste debate; artigos de Immanuel Wallerstein, Robert Pollin e Vijay Prashad, todos eles intelectuais e professores em universidades nos EUA. Com a eleição de Obama, a esquerda estadunidense vive um momento efervescente e promove um importante debate sobre a necessidade de reinventar o socialismo. O primeiro artigo é de Vijay Prashad, professor do Trinity College, que fala sobre como a esquerda não estava preparada para o colapso do neoliberalismo.

* Sometimes he seems to sleep, but will not fail
In every age to rear up to defend
Each dying force of history to the end.

W.H. Auden, August 1936

Eu passei minha vida adulta inteira lutando para pôr o capitalismo de joelhos. Agora ele tropeça – e eu estou ansioso. Nos primeiros sessenta dias de 2009, 1,2 milhões de pessoas perderam seus empregos nos Estados Unidos, e os tremores dessa desordem financeira sacudiram as fundações de bilhões a mais ao redor do planeta. As coisas estão num caminho tão inglório que até o Banco Mundial teve de se liberar de suas obrigações neoliberais. Seu presidente Robert Zoellick, que já foi o capitão da globalização neoliberal na sua cabine de comando como Representante de [Livre] Comércio Exterior dos EUA diz, agora, “Essa crise global precisa de uma solução global...Precisamos de investimentos em redes seguras, infraestrutura e em empresas pequenas e médias para criar empregos e impedir a agitação social e política”. O neoliberalismo está morto. Agora temos de entrar numa fase diferente: neo-keynesiana, talvez?



Eu estou ansioso. O neoliberalismo sucumbiu às suas próprias contradições. O domínio da finança, sempre uma casa vazia, finalmente se desfez. E, ainda, nós não estamos preparados. Mesmo com o levante da esquerda na América Latina, de um novo populismo vira-lata em Beirute, Bagdá, Teerã, Bangkok – os dragões da velha ordem permanecem no poder. Eles resistiram à crise econômica, mantendo sua autoridade legitimada. Eles fazem, com temeridade, essa ou aquela concessão (mesmo à idéia da nacionalização dos bancos), mas sabem muito bem que seus opositores estão irritados, ávidos, sem o tipo de fundação poderosa para lhes oprimir.


Idéias corretas nunca são suficientes; não se crê e põe em prática idéias pelo fato de elas serem corretas. Elas se tornam idéias de nosso tempo só quando são adotadas por aqueles que chegam a acreditar no nosso próprio poder, que usam-no para lutar por meio das instituições e para consolidar esse poder. Nós, representantes dos descamisados, temos pouco poder, mesmo com nossas pastas carregadas das melhores idéias.


No notável livro Monopoly Capital [O Capital Monopolista, publicado no Brasil pela Zahar], de 1996, Paul Sweezy e Pau Baran se perguntam por que a recuperação da Depressão dos anos 30 teve de esperar pela expansão maciça dos gastos do governo federal para a Segunda Guerra Mundial. O New Deal foi importante para conduzir um “salvamento” do que tinha sido quebrado pela Era de Ouro, mas era ele mesmo incapaz de ser um estímulo. Interesses poderosos se recusaram a permitir que o governo Roosevelt fizesse um movimento para aumentar o consumo e o investimento governamentais para além dos 15% do Produto Interno Bruto (era 14,5 % em 1938).


Esse teto não era uma barreira estritamente econômica, pois outras sociedades tinham condições de gastar acima desse limite sem seguir a trilha das pedrinhas amarelas da servidão. Era, antes, uma barreira política. Ensaiando esse argumento, John Bellamy Foster e Robert McChesney sustentaram recentemente que essa barreira não poderia ser quebrada “sem uma maciça, na verdade transformadora luta social, a despeito de uma administração relativamente progressista e da pior crise econômica desde a Grande Depressão...as forças que mantêm os gastos públicos domados são poderosas demais para serem afetadas por qualquer coisa, salvo um grande levante na sociedade”. Os Dragões, em outras palavras, devem ser acorrentados.



O chamamento à ação não é o bastante. Nós nos Estados Unidos temos de retrabalhar nossa cansada gramática política. Não mais messianismo, não mais a espera pelo “homem mágico” (como disse Ella Baker). Não mais pensamento alinhado, não nos exaurir mais com a ilusão de que deveríamos lutar como fragmentos e acreditar que nós “vencemos” uma fatia da fábrica social e precisamos defendê-la. Não mais confiar nos profissionais, nas organizações não-lucrativas, as fundações. Não mais reter a capacidade de trazer as pessoas comuns para um movimento extraordinário. Agora é o momento para nós estendermos nossos braços corajosamente e nos ligarmos uns aos outros através de uma perspectiva de lutas combinadas.


“Às vezes, quando você puxa algo para muito longe, ele se torna outra coisa”, explicou Fred Hampton em 1969. “Você já cozinhou algo por tanto tempo que ele se tornou outra coisa? Não é assim? É disso que estamos falando na política”. Reunir, formar, pressionar: as melhores idéias a respeito do que fazer são importantes, mas elas são insuficientes. Precisamos organizar nosso poder de tornar nossas idéias corretas.


Vijay Prashad é Professor de Estudos Internacionais e de História do Sul Asiático no Trinity College, em Hartford, Connecticut, EUA, onde ocupa a cadeira George e Martha Kellner. É autor de vários livros e reivindica orientação marxista. Autor do notório The Darker Nations: A People's History of the Third World (New Press, 2007) e co-fundador do Fórum dos Indianos de Esquerda (FOIL, na sua sigla em inglês), contribui com inúmeras publicações e sites ao redor do mundo. É também um crítico contumaz do nacionalismo cultural hindu, conhecido como Hindutva.


(*)

Às vezes ele parece dormir, mas não falhará
Em cada época, para se levantar e defender
Cada força agonizante da história ao seu fim.


W.H.Auden, 1936