quarta-feira, 1 de abril de 2009

O Colapso do Neoliberalismo


Não é de hoje que se anuncia o colapso do neoliberalismo. O grande problema é que ninguém escutava ou não entendia como isso poderia ocorrer. Este colapso, como alguns economistas marxistas tem conceituado essa crise capitalista pegou muita gente de surpresa. Segundo alguns deles nem a esquerda acreditava muito nesta hipótese. Então, como uma força mágica, ventos de esperanças varrem o mundo na tentativa de entender melhor o socialismo e suas nuances.

Nos Estados Unidos, referência política do pensamento neoliberal, surgem debates para entender as diversas linhas de pensamentos marxistas.

O texto abaixo foi compilado do site da agência de notícias Carta Maior. Achei muito interessante este debate, apesar de parecer que eles querem reiventar a roda. (heheheheh)




Esquerda dos EUA debate: como reimaginar o socialismo?

A revista The Nation promoveu um fórum intitulado "Reimaginando o socialismo", para debater a situação da esquerda no mundo e suas perspectivas diante da falência do neoliberalismo. A Carta Maior publica algumas das contribuições deste debate; artigos de Immanuel Wallerstein, Robert Pollin e Vijay Prashad, todos eles intelectuais e professores em universidades nos EUA. Com a eleição de Obama, a esquerda estadunidense vive um momento efervescente e promove um importante debate sobre a necessidade de reinventar o socialismo. O primeiro artigo é de Vijay Prashad, professor do Trinity College, que fala sobre como a esquerda não estava preparada para o colapso do neoliberalismo.

* Sometimes he seems to sleep, but will not fail
In every age to rear up to defend
Each dying force of history to the end.

W.H. Auden, August 1936

Eu passei minha vida adulta inteira lutando para pôr o capitalismo de joelhos. Agora ele tropeça – e eu estou ansioso. Nos primeiros sessenta dias de 2009, 1,2 milhões de pessoas perderam seus empregos nos Estados Unidos, e os tremores dessa desordem financeira sacudiram as fundações de bilhões a mais ao redor do planeta. As coisas estão num caminho tão inglório que até o Banco Mundial teve de se liberar de suas obrigações neoliberais. Seu presidente Robert Zoellick, que já foi o capitão da globalização neoliberal na sua cabine de comando como Representante de [Livre] Comércio Exterior dos EUA diz, agora, “Essa crise global precisa de uma solução global...Precisamos de investimentos em redes seguras, infraestrutura e em empresas pequenas e médias para criar empregos e impedir a agitação social e política”. O neoliberalismo está morto. Agora temos de entrar numa fase diferente: neo-keynesiana, talvez?



Eu estou ansioso. O neoliberalismo sucumbiu às suas próprias contradições. O domínio da finança, sempre uma casa vazia, finalmente se desfez. E, ainda, nós não estamos preparados. Mesmo com o levante da esquerda na América Latina, de um novo populismo vira-lata em Beirute, Bagdá, Teerã, Bangkok – os dragões da velha ordem permanecem no poder. Eles resistiram à crise econômica, mantendo sua autoridade legitimada. Eles fazem, com temeridade, essa ou aquela concessão (mesmo à idéia da nacionalização dos bancos), mas sabem muito bem que seus opositores estão irritados, ávidos, sem o tipo de fundação poderosa para lhes oprimir.


Idéias corretas nunca são suficientes; não se crê e põe em prática idéias pelo fato de elas serem corretas. Elas se tornam idéias de nosso tempo só quando são adotadas por aqueles que chegam a acreditar no nosso próprio poder, que usam-no para lutar por meio das instituições e para consolidar esse poder. Nós, representantes dos descamisados, temos pouco poder, mesmo com nossas pastas carregadas das melhores idéias.


No notável livro Monopoly Capital [O Capital Monopolista, publicado no Brasil pela Zahar], de 1996, Paul Sweezy e Pau Baran se perguntam por que a recuperação da Depressão dos anos 30 teve de esperar pela expansão maciça dos gastos do governo federal para a Segunda Guerra Mundial. O New Deal foi importante para conduzir um “salvamento” do que tinha sido quebrado pela Era de Ouro, mas era ele mesmo incapaz de ser um estímulo. Interesses poderosos se recusaram a permitir que o governo Roosevelt fizesse um movimento para aumentar o consumo e o investimento governamentais para além dos 15% do Produto Interno Bruto (era 14,5 % em 1938).


Esse teto não era uma barreira estritamente econômica, pois outras sociedades tinham condições de gastar acima desse limite sem seguir a trilha das pedrinhas amarelas da servidão. Era, antes, uma barreira política. Ensaiando esse argumento, John Bellamy Foster e Robert McChesney sustentaram recentemente que essa barreira não poderia ser quebrada “sem uma maciça, na verdade transformadora luta social, a despeito de uma administração relativamente progressista e da pior crise econômica desde a Grande Depressão...as forças que mantêm os gastos públicos domados são poderosas demais para serem afetadas por qualquer coisa, salvo um grande levante na sociedade”. Os Dragões, em outras palavras, devem ser acorrentados.



O chamamento à ação não é o bastante. Nós nos Estados Unidos temos de retrabalhar nossa cansada gramática política. Não mais messianismo, não mais a espera pelo “homem mágico” (como disse Ella Baker). Não mais pensamento alinhado, não nos exaurir mais com a ilusão de que deveríamos lutar como fragmentos e acreditar que nós “vencemos” uma fatia da fábrica social e precisamos defendê-la. Não mais confiar nos profissionais, nas organizações não-lucrativas, as fundações. Não mais reter a capacidade de trazer as pessoas comuns para um movimento extraordinário. Agora é o momento para nós estendermos nossos braços corajosamente e nos ligarmos uns aos outros através de uma perspectiva de lutas combinadas.


“Às vezes, quando você puxa algo para muito longe, ele se torna outra coisa”, explicou Fred Hampton em 1969. “Você já cozinhou algo por tanto tempo que ele se tornou outra coisa? Não é assim? É disso que estamos falando na política”. Reunir, formar, pressionar: as melhores idéias a respeito do que fazer são importantes, mas elas são insuficientes. Precisamos organizar nosso poder de tornar nossas idéias corretas.


Vijay Prashad é Professor de Estudos Internacionais e de História do Sul Asiático no Trinity College, em Hartford, Connecticut, EUA, onde ocupa a cadeira George e Martha Kellner. É autor de vários livros e reivindica orientação marxista. Autor do notório The Darker Nations: A People's History of the Third World (New Press, 2007) e co-fundador do Fórum dos Indianos de Esquerda (FOIL, na sua sigla em inglês), contribui com inúmeras publicações e sites ao redor do mundo. É também um crítico contumaz do nacionalismo cultural hindu, conhecido como Hindutva.


(*)

Às vezes ele parece dormir, mas não falhará
Em cada época, para se levantar e defender
Cada força agonizante da história ao seu fim.


W.H.Auden, 1936

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