terça-feira, 14 de abril de 2009

Como é que fica Cuba, Sr. Obama?


A criação da Cúpula das Américas tinha o objetivo de discutir uma agenda comum no que tange o comércio entre os países da América. Apenas Cuba ficou de fora. Obviamente por imposição dos Estados Unidos. No próximo dia 17 estarão se reunindo boa parte, se não todos, os chefes de Estados dos diversos países que compõe o continente Americano em Trinidad e Tobago. Um país ilha, que fica no caribe, próximo à Venezuela. Apesar de Cuba não estar presente, provavelmente será a grande questão do encontro. Será que o império norte americano retrocederá em sua impáfia e colocará na mesa seu próprio revisionismo em relação Cuba? Será que o fim do embargo econômico está a caminho? Sabemos que não será de imediato, já que para que isso ocorra, há necessidade de aprovação do congresso americano. Mas qualquer gesto neste direção, e parece que o governo Obama tem tomado, será um grande sinal.

O artigo de Emir Sader é muito interessante em relação a isto. Acompanhe abaixo;



"What about Cuba, Mr. Obama?"


Ilusão de Obama se acredita que será recebido de outra maneira na reunião de Trinidad-Tobago. Ele pode falar da crise, da nova postura do seu governo diante do Iraque e do Irã, de tanta coisa, mas não conseguirá fazer com que sua atitude na relação com Cuba deixe de ser central.

A posição norte-americana sobre Cuba representa, na sua síntese, a posição imperial dos EUA em relação à América Latina. Quando sentiu que estava diante de um processo realmente revolucionário, que não apenas derrubava uma das tantas ditaduras que Washington apoiava na região, mas que o novo poder em Havana reivindicava de forma radical a soberania do país, como avançava na construção de uma sociedade justa, começando pela reforma agrária.

Até ali movimentos anti-ditatoriais e/ou nacionalistas sempre tinham sido derrubados ou cooptados. Mesmo os mais fortes, como os de Perón e de Getúlio ou até a Revolução Boliviana de 1952. Quando se deu conta que perdia o controle sobre um país que havia sido sua mais importante neocolônia, os EUA iniciaram uma ofensiva para tentar impedir que o poder revolucionário se consolidasse.

Valeram-se os EUA de todos os instrumentos de que podiam lançar mão: dos ataques com fósforo branco – iniciados antes mesmo da vitória de Fidel e seus companheiros, sobre territórios liberados da região oriental da Ilha -, a atentados ao líder da Revolução, ao envio de comandos terroristas, ao armamento da oposição direitista, ao armamento de grupos contrarrevolucionários na cordilheira central do país, ao e à calunia informativa e à tentativa de bloqueio econômico e diplomático.

Valiam-se os EUA de uma máxima segundo a qual “Sem cota, não há país”, isto é, sem que o poderoso vizinho do norte comprasse a safra de açúcar, o país não sobreviveria. A burguesia cubana fechava suas casas e ia aos EUA como quem vai de férias, esperando que o novo governo caísse, sob o impacto do boicote estadunidense.

Paralelamente, Washington desatava a maior ofensiva contra um país no continente, que incluiu a tentativa de invasão, em 1961 e o bloqueio naval em 1962. Ao mesmo tempo os EUA levaram a OEA a decretar o isolamento de Cuba no continente, com a ruptura de relações de todos os governos com a Ilha – menos o México, que manteve apenas relações diplomáticas -, fechando assim o cerco econômico, ao mesmo tempo que Washington dividia a cota de açúcar cubanos entre os países subservientes.

Passaram-se mais de 4 décadas e 10 presidentes norte-americanos, e Cuba sobreviveu e rompeu de fato o bloqueio, tanto em relação aos outros países do continente – Costa Rica, o último, acabou de restabelecer relações com Cuba -, como o próprio intercâmbio – e turismo, cultural, comercial – foi sendo restabelecido. Cuba manteve sua dignidade e sua soberania, ao mesmo tempo que construía a sociedade mais justa do mundo, para o que foi indispensável afetar profundamente os interesses dos EUA no país.

Foi isso que os EUA nunca perdoaram em Cuba – sua independência e seu papel de exemplo, ao romper com a dominação imperialista sobre a Ilha e construir os embriões de um novo tipo de sociedade, o socialismo. Cuba propõe a normalização de relações, sem nem sequer requerer a devolução de Guantánamo, como é absolutamente justo que ocorra, apenas que cada país respeite o tipo de sociedade do outro e tenham relações recíprocas de igualdade e respeito.

O problema para Obama é que, se quer provar nos fatos que tem uma atitude distinta com a América Latina, terá que prová-lo pelo término do bloqueio e a normalização de relações com Cuba. Pelo caráter que tem de sobrevivência da guerra fria e de expressão mais acabada da prepotência imperial nas relações com o continente, Obama não poderá ficar apenas na flexibilização da circulação de pessoas, do envio de dólares, do comércio já existente, mas terá que avançar para reuniões diretas com os dirigentes cubanos e o restabelecimento do último governo da América que resiste a ter relações normais com Cuba.

Da resposta à saudação com que todos receberão Obama em Trinidad-Tobago, dependerá a abertura de um novo período nas conturbadas, violentas e até aqui prepotentes relações dos EUA com a América Latina.

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