terça-feira, 15 de março de 2011

Capitalismo: uma história sem amor



Novo filme do cineasta norte-americano Michael Moore surpreende mais pela exposição de cenas e situações que parecem ter desaparecido do mundo real, especialmente dos países ricos, do que pela crítica aos efeitos desastrosos do capital financeiro na crise de 2008. Mas, ainda assim, um documentário que vale a pena ser visto.

Por Ricardo Alvarez
A liberdade ampla, geral e irrestrita de circulação do capital financeiro provocou uma forte e aguda crise no mundo ao final desta década, este é um debate que ganha corpo e adeptos, inclusive dentre o grupo dos neoliberais convictos. Desde que Bush, Obama e seus parceiros na Europa estenderam as mãos ao grande capital em crise, oferecendo ajuda financeira em escala bilionária com recursos públicos, tornou-se, no mínimo desconfortável, defender as “maravilhas do capital sem controle” e da não regulação estatal da economia, mesmo para os apologistas do mercado livre.
Há uma linha de pensamento que indica uma crise do capitalismo que se arrasta desde os anos 70, quando a combinação Fordismo e Estado do Bem Estar Social, chegou ao seu estado de esgotamento final. Tal associação se apoiava num tripé com funções e papéis definidos: produção em larga escala, Estado provedor de infra-estrutura e crédito, instituições reguladoras da economia, e classe trabalhadora com um poder de compra (especialmente nos países centrais) capaz de escoar a produção em série, e assim se garantir, ainda que de forma crítica, o ciclo da produção e do consumo e a viabilização do lucro, evidentemente.
A crise de acumulação delineada já no início dos anos 1970, fez reforçar o pensamento liberal, travestido de neoliberal, em contraposição a esta lógica de funcionamento do processo de acumulação de capital, predominante desde a Segunda Guerra Mundial. Os falcões da economia se antecipavam sobre os falcões da política. O fim do padrão ouro-dólar (início dos anos 70) substituído pelo novo lastro apoiado no mercado de moedas já apontava para uma política monetária de Estado fragilizado e profundamente instável.
Faltavam os próceres que levariam à frente o novo ideário, em contraponto ao Estado interventor. Ronald Reagan e Margareth Thatcher foram os titãs a descortinar um mundo novo a partir dos anos 80. A idéia de liberdade de mercado atraia, pois era embrulhada no mesmo jornal das liberdades pessoais. Quem seria contra? Seguiu-se uma onde de privatizações, redução dos impostos aos mais ricos, desregulamentação aos mercados financeiros, redução das tarifas comerciais, destruição intensiva dos direitos sociais e trabalhistas, enfim, garantia de maior fluidez dos capitais e de ampliação da margem de lucro. Tudo sob o discurso ideológico de que a crise fora causada por “Estados provedores demais”. Evidentemente, o papel da grande mídia foi o de sustentar as medidas tomadas pelos chefes de Estado e pelas grandes corporações, valorizando a espoliação das empresas, territórios e exploração de pessoas como caminho único e necessário.
A queda do muro de Berlim e a derrocada do bloco do socialismo real contribuíram, sobremaneira, para o fortalecimento do discurso de que o que é público não funciona.
É neste contexto que se apresenta o documentário “Capitalismo: uma história de amor” de Moore. Sua crítica a este novo padrão de acumulação de capital tem o mérito de trazer para as telas do cinema um assunto que normalmente se restringe a pequenos círculos de discussão, difícil inclusive de ser trabalhado visualmente na linguagem cinematográfica.
Mas o que mais chama a atenção na película é a exibição de imagens que, creio, são inclusive surpresa para os próprios norte-americanos. A resistência e o contraditório emergem, revelando a organização e luta dos órfãos do neoliberalismo, que são muitos.
Quem imaginaria uma ocupação de fábrica nos EUA e uma declaração de Barack Obama em apoio? A visita de um bispo ao local, o apoio de deputados... Já imaginaram tal coisa no Brasil? Como se comportaria a grande mídia?
Que tal ainda alguns deputados sugerindo que a população que estava sendo despejada de suas casas praticasse um ato de desobediência civil e resistisse à entrega das chaves? Coisa de revolucionários esquerdistas atrasados e fixados em idéias ultrapassadas, diriam as poucas famílias que controlam revistas, jornais e internet por aqui.
A mídia no Brasil expôs fartamente o acidente com a aeronave da companhia US Airways em janeiro de 2009, que viajava entre Nova York e Charlotte, no Estado da Carolina do Norte. O piloto fez um pouso de emergência no rio Hudson, próximo à Estátua da Liberdade, ninguém dos quase 200 ocupantes se feriu. Moore, em vez de explorar as merecidas homenagens oferecidas ao piloto Chesley Sullenberger, foi ao Congresso Nacional e filmou suas declarações sobre a precarização do trabalho nas empresas de aviação. Detalhe interessante: naquele momento, sem fotografias, o parlamento estava quase vazio.
Até a grata lembrança da figura de Jonas Salk, criador da vacina contra a poliomielite, ganha sentido neste contexto, em função de sua recusa em receber fortuna pela patente da importante descoberta.
O que dizer do esquema que detém jovens por motivos torpes, mas plenamente justificado a partir da privatização e o repasse de recursos públicos ao proprietário da penitenciária? Quanto mais presos, maior o lucro, numa associação virtuosa e direta entre o poder executivo, judiciário e o capital privado. É assim que o capitalismo neoliberal funciona: quanto mais pobreza e delinqüência, mais lucros.
Há também a fábrica que funciona em auto-gestão, participativa, com pequenas diferenças salariais entre os cargos de chefia e os trabalhadores da linha de produção. No Brasil, onde há exemplos interessantes neste sentido, nada disto aparece na telinha. Moore fez o favor de mostrar que, independente de se concordar ou não com esta forma de produção, ela existe e funciona, para a raiva dos ideólogos do neoliberalismo e seus apoiadores caninos.
Não deixe de assistir a película. Observe os íntimos vínculos entre as grandes corporações empresariais do setor produtivo e financeiro e os agentes públicos, operando num ambiente de total promiscuidade, sugerindo que o que é bom para as grandes corporações, também o é para a sociedade como um todo.
Voltamos ao início, e esta é uma questão central: a voracidade do capital, intrínseca a sua reprodução, é a responsável pela explosão da miséria e da pobreza pelo mundo, além da destruição dos recursos naturais. O neoliberalismo fez o favor de aprofundar esta condição. Vivemos hoje o rescaldo da tragédia.
Somente outra forma de organização social, apoiada nas necessidades humanas e não nas necessidades do capital, poderá aplacar o buraco em que estamos metidos. E não me venham dizer que capital e humanidade combinam. A não ser que você seja mais um daqueles que acha que o capitalismo produziu coisas boas, as ruins são culpa dos homens maus. Assim fica fácil de justificar as mazelas da sociedade atual.
Ricardo Alvarez

Geógrafo, é professor e editor do site Controvérsia

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