terça-feira, 1 de maio de 2012

1º de Maio: Recordando os mártires de Chicago



Montagem fotográfica dos mártires de Chicago, 1887


Texto retirado do site Causa Operária on line

A origem do 1º de maio está vinculada a uma importante luta da classe operária mais desenvolvida do mundo, que é a norte-americana.

Na década de 1880, os Estados Unidos atravessavam uma crise de superprodução. Essa crise gerou uma legião de centenas de milhares de desempregados e uma série de mazelas para a classe operária. Seu custo de vida se elevou enormemente e a mortalidade avançou um alto nível principalmente entre as crianças. Os baixos salários faziam com que suas mulheres e filhos trabalhassem para receber o equivalente a 33% do orçamento familiar. Os avanços técnicos, ao invés de diminuir, intensificavam o trabalho, a jornada era geralmente de dez a doze horas, sendo freqüentemente necessário trabalhar quinze horas e até aos domingos e feriados.

Fruto dessa situação, o movimento operário teve um forte desenvolvimento, expresso na agregação de setores mais atrasados com elementos mais antigos e conscientes da classe e na heterogeneidade da sua composição. Grandes sindicatos foram formados nos anos da crise (1882-1885) nos maiores centros industriais do País, Nova Iorque, Detroit, Chicago, Cincinnati. Nesse período de grande efervescência política, aumentaram consideravelmente os órgãos de imprensa operária. Os maiores sindicatos, de gráficos, mineiros, carpinteiros etc. tinham um jornal próprio. Apareceram por todo o país mais de quatrocentos jornais periódicos simpatizantes das organizações operárias, como o diário Laborer em Massachusetts, o semanário Craftsman em Washington e o Labor Tribune em Pittsburg. Havia ainda os jornais dos grupos socialistas e anarco-sindicalistas, como o New-Ypor Volks-Zeitung, o Der Sozialist, o Alarm e o Arbeiter-Zeitung. Os mais ativos eram os semanários Alarm, dirigidos por Albert Parsons e escrito em inglês, e Arbeiter-Zeitung, em alemão, dirigido por August Spies. 

Com o aprofundamento da crise e o agravamento da situação dos operários, o movimento se amplia, tendo como reivindicação central a redução da jornada de trabalho. Essa reivindicação é importante tanto do ponto de vista econômico, quanto político. Do primeiro, porque é uma reivindicação que vai contra a tentativa da burguesia de aumentar a exploração dos operários através da extração da mais-valia absoluta. Do ponto de vista político, porque a jornada exaustiva coloca também enormes dificuldades para a organização dos trabalhadores, tanto sindical, quanto em partidos. É necessário ter um certo tempo livre para a atividade política. Nesse sentido, a burguesia é privilegiada também pelo enorme tempo livre de que dispõe para se dedicar a essa atividade, além dos seus políticos profissionais, que gozam tanto de uma situação financeira favorável, quanto de financiamento estatal.

Em 1886 o número de participantes nessas manifestações aumenta aproximadamente doze vezes. 320 mil trabalhadores aderem à greve geral de maio deste mesmo ano pela jornada de oito horas. Esta foi a primeira intervenção de massa do proletariado industrial enquanto classe na história dos Estados Unidos. 

No dia 1° de maio de 1886, os principais centros industriais norte-americanos foram paralisados por uma greve geral, que assustou a burguesia norte-americana.
Nesse dia os grevistas de Chicago se reuniram em uma grande assembléia na Praça Haymarket, reivindicando a redução da jornada de trabalho para oito horas e o melhoramento das condições de trabalho.

Preocupadas com a amplitude que o movimento estava adquirindo, as autoridades locais armaram uma provocação, e numa manifestação chamada para o dia 4, por ocasião do assassinato de grevistas pela polícia que havia ocorrido no dia anterior, lançaram uma bomba no meio da multidão. Policiais e soldados de guarnições próximas aguardavam esse sinal para abrir fogo contra a os grevistas.

A partir daí houve uma grande contra-ofensiva da burguesia sobre os operários em todo o país e principalmente aos seus dirigentes. Intensificaram a campanha contra a classe operária e suas organizações, a propaganda antioperária, e as mentiras que enchiam as páginas dos jornais capitalistas norte-americanos. Junto disso veio uma onda de prisões e perseguições aos militantes mais conhecidos do movimento sindical e operário, todas as organizações anarco-sindicalistas foram proibidas e seus jornais fechados. As autoridades militares estabeleceram uma verdadeira guerra contra a população e os patrões criaram grupos especiais para “manter a ordem” e defender a sua propriedade. Preparando o terreno para ações mais duras no futuro, toda a imprensa reacionária exigia a imediata execução dos dirigentes operários presos. Oito dos principais dirigentes do proletariado de Chicago, foram levados à justiça. 

Sem possuir prova alguma de que eram culpados da explosão da bomba, e possuindo, ao contrário, provas irrefutáveis de que apenas dois dos dirigentes estavam presentes no momento, num julgamento vergonhoso, sete operários, Albert Parsons, August Spies, Samuel Fielden, Michael Schwab, Adolph Fischer, George Engel, Louis Lingg, foram condenados a morte e um, Oscar Neebe, a quinze anos de prisão. Na escolha do júri, foram rejeitadas todas as pessoas que tivessem relações com organizações operárias ou que manifestassem simpatia por elas. A maior parte dos jurados eram patrões ou pessoas diretamente ligadas a eles, todas abertamente hostis aos operários e às atividades socialistas.

Fica absolutamente claro que quando se trata de defender seus interesses, contra a mobilização revolucionária das massas, a burguesia não se lembra de cumprir a lei, nem de ser democrática, mas depois usa a democracia para atacar a classe operária, suas organizações, suas reivindicações e suas lutas.

Esse ato de absoluta arbitrariedade cumpria uma função política: intimidar e desmobilizar o crescente movimento operário que evoluía cada vez mais para uma via consciente em Chicago e nos Estados Unidos.

A despeito desse fato foram feitas numerosas manifestações operárias nos Estados Unidos e na Europa e da opinião progressista norte-americana. Apesar da grande pressão, as penas não foram canceladas. Apenas as de Schwab e Fielden foram substituídas pela de prisão perpétua. Lingg morreu na prisão. Parsons, Spies, Fischer e Engel foram enforcados em 11 de novembro de 1887.

Em uma demonstração de significativa franqueza, não cultuada pelos capitalistas, um empresário norte-americano declarou; “Eu não sei se os operários presos são culpados ou não, mas eu tenho certeza que eles devem ser enforcados. Eu não tenho medo dos anarquistas, eles são uns reformadores sociais exóticos, sonhadores, românticos, existiram em todas as épocas e sempre vão existir e são relativamente inofensivos, agora, o movimento operário tem que ser esmagado.”
 
As últimas palavras dos mártires foram endereçadas à classe operária
 
Lingg foi enterrado no cemitério Waldheim em Chicago. Seu enterro transformou-se em uma manifestação de solidariedade entre os operários, acompanhado por 25 mil pessoas.
O escritor William Dean Howells, eminente personalidade norte-americana chegou a declarar: “A república livre executou cinco pessoas por suas convicções”.

Em Chicago os operários erigiram um obelisco em homenagem aos mártires de Haymarket. Esses acontecimentos também tiveram grande repercussão no mundo todo.

O 1º Congresso da II Internacional, organização dos partidos operários e socialistas, dirigida pelos revolucionários marxistas, reunido em Paris, tomando por base a luta que estava acontecendo naquele momento, deliberou que todas as organizações operárias e partidos socialistas deveriam trabalhar para que em um dia específico em todos os locais onde houvesse organização operária, fosse realizada uma manifestação pela redução da jornada de trabalho.

Em 1890 esse ato foi realizado em vários lugares. A data preferencial era o 1º de maio, mas não foi realizado nessa data em todos os países. Como a manifestação implicava em fazer um chamado geral aos trabalhadores por um dia, era praticamente como uma greve geral de um dia. Portanto, nos países onde a organização operária ainda era fraca, o ato foi convocado para o domingo, mas rapidamente, o 1º de maio se transformou na data unificada de luta da classe operária. Nos EUA, a burguesia imperialista, para ocultar seu crime monstruoso contra a classe operária estabeleceu um “dia do trabalho” em setembro.

Atualmente é feriado na maioria dos países, reconhecido pelo estado burguês. Isso aconteceu porque na prática os trabalhadores transformavam em feriado, o que revela o enorme poder de luta da classe operária internacional. O fato de uma classe oprimida, pobre, em geral inculta, com enormes dificuldades para se organizar, se organizou a ponto de estabelecer esse dia internacional, é a mostra não só da unidade internacional, como da força e natureza social internacional da classe trabalhadora.

Até o dia de hoje, a burguesia tenta, sem sucesso algum destruir esta tradição de luta da classe operária mundial. Na impossibilidade de quebrar a resistência dos operários e abolir o feriado de 1º de maio utilizam-se dos seus funcionários capachos nas organizações sindicais e políticas ligadas ao proletariado para tentar prostituir esta data e a memória dos que defenderam com a própria vida a classe operária. No entanto, sistematicamente, os trabalhadores mais conscientes retomam a bandeira histórica do 1º de maio como um dia de luta internacionalista, contra a burguesia, contra o capitalismo e de luta pela sociedade socialista.

Não haveria 1º de Maio se não fosse por eles, mas a cada ano menos gente sabe quem foram os mártires de Chicago.

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