sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O HOMEM QUE TIROU O BRASIL DAS TREVAS



O texto abaixo é do Azenha, jornalista consagrado que mantém um site na internet (Vi o Mundo) com um conteúdo bem interessante. Seus textos nos leva a refletir e as vezes denunciam o quanto somos vítimas de uma mídia comprometida com outros interesses que não seja a do povo brasileiro.
Boa leitura!

Por Luiz Carlos Azenha
O HOMEM QUE TIROU O BRASIL DAS TREVAS

Foram curiosos os últimos dias. A internet esteve movimentadíssima.
Vimos uma estratégia de defesa se converter, de repente, na defesa de uma causa: a causa da democracia.
Falo das repercussões da Operação Satiagraha.
Os advogados que servem ao banqueiro Daniel Dantas são sofisticados. O próprio já deu muitas demonstrações de sagacidade intelectual. Quando não fez isso diretamente "terceirizou" o discurso para gente bem preparada.
A história é mais ou menos a seguinte: era uma vez um banqueiro cujos únicos defeitos eram a ambição e a fortuna. E ele passou a ser perseguido por um governo. E o governo usou instrumentos de Estado para violar os direitos do banqueiro e, portanto, a própria democracia.
Esse governo, estatista e bisbilhoteiro, usou seus instrumentos de coerção para algemar e prender o banqueiro. Usou de artimanhas para preparar uma armadilha contra o empresário. Enfrentar esse governo, portanto, deixa de ser a tarefa de advogados criminalistas que defendem um acusado de bisbilhotar a vida alheia, de plantar informações e dossiês na mídia, de promover a corrupção política ou de facilitar a sonegação de impostos através de depósitos bancários no Exterior. Defender o banqueiro ganha ares de defesa da causa democrática.
Para que essa "tese" ganhe tração na sociedade é preciso contar com o apoio da mídia. Que não tem faltado. Os advogados do banqueiro - e de todos aqueles que foram acusados com ele - passaram a ser as principais fontes da verdade.



Eu me lembro de quando era repórter da TV Globo e houve uma discussão sobre "dar voz a bandido". Houve um período em que isso foi interpretado como "apologia ao crime" e vetado. Mas nunca valeu, é claro, para os criminosos de colarinho branco que pagam advogados milionários. Ainda mais quando esses acusados convivem com os donos da emissora de televisão.
Aliás, notem no discurso televisivo: acusados pobres, sem condenação definitiva, são chamados de "bandidos".
Hugo Chicaroni, acusado de subornar um delegado da PF, é "professor universitário".

Seqüestrar o discurso de uma causa justa não é novidade na História do Brasil.
E há muitos exemplos dessa tática.
Notem a declaração do ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça, Waldemar Zveiter, reproduzida em "O Globo" e feita durante evento de militares da reserva, no Rio de Janeiro, a propósito da polêmica em torno da anistia para torturadores:
"- Vejam os senhores com que responsabilidade está atuando o governo ao tentar reabrir discussões e feridas absolutamente sem qualquer fundamentação jurídica, ética e muito menos moral. O que se pretende é uma imoralidade. Nós estamos num ano eleitoral, eles estão jogando para a platéia. Nós vamos tirar o senhor ministro da Justiça de lá. Ou ele sai pelo voto ou porque nós vamos para a praça pública e para a frente do Palácio do Planalto. Fora com os golpistas. Já tiveram um segundo mandato. Querem um terceiro e não vão levar."
Notem que ele fala em um "segundo mandato" como se tivesse sido uma concessão, não resultado de uma decisão limpa, da maioria, dentro de todas as normas vigentes.

O evento reuniu apoiadores de um regime que cassou, fechou o Congresso, prendeu, censurou a imprensa e governou por atos institucionais. No entanto, um apoiador desse regime de força não se identifica como golpista. "Golpistas" são os outros. Ele é "defensor da democracia".
É disso que estamos tratando aqui.
De doublespeak.
De gente que defende uma "certa democracia" como se fosse a democracia certa.
Por isso, ainda que o frenético ativismo recente do presidente do STF, Gilmar Mendes, tenha sido causado pela prisão do banqueiro, é preciso dar as boas vindas a todas as mudanças que aperfeiçoem a legislação.
Cobremos que os "bandidos" do Jornal Nacional só sejam chamados de bandidos quando tiverem a sentença definitiva. Antes disso são suspeitos, com direito a indenização se forem caluniados.
Cobremos que a polícia não algeme pobres desnecessariamente, que não torture para arrancar confissões, que as cadeias brasileiras não sejam depósitos de presos e que presos que já tenham cumprido pena não sejam mantidos apodrecendo nas prisões.
Cobremos uma apuração transparente e idônea dos crimes atribuídos ao banqueiro.
Coerção física é coisa do século 20.
Estamos na era da coerção intelectual.
Fiquem espertos, que com a ajuda da mídia o banqueiro acusado de formação de quadrilha vai reescrever a História contemporânea, se consagrando como o homem que tirou o Brasil das trevas.

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