quinta-feira, 11 de junho de 2009

A Coreia do Norte é a real ameaça?


Quando representantes norte-coreanos afirmam que suas tentativas de desenvolver armas nucleares buscam desencorajar um ataque dos EUA, eles estão certos

Quando representantes norte-coreanos afirmam que suas tentativas de desenvolver armas nucleares buscam desencorajar um ataque dos EUA, eles estão certos

Por Alan Maass*


O governo estadunidense possui armas nucleares apontadas para a Coreia do Norte, uma esquadra da marinha permanentemente posicionada em sua costa e perto de cem mil soldados posicionados na Coreia do Sul e no Japão. Sucessivos governos estadunidenses têm descumprido promessas feitas há duas décadas para fornecer ajuda humanitária à população empobrecida daquele país, mas você não saberia nada disso ao ouvir a opinião pública internacional sobre o teste nuclear realizado pelo regime da Coreia do Norte no dia 25 de maio. Ao invés disso, lideranças políticas estadunidenses e internacionais, aplaudidas pela mídia, se uniram para acusar o país pelo aumento unilateral da ameaça de guerra.


Esse foi o segundo teste nuclear da Coreia do Norte. Detonada no subterrâneo, era uma bomba poderosa, estimada entre 10 e 20 kilotons – aproximadamente o mesmo poder destrutivo das bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial.


Os militares norte-coreanos anunciaram, no mesmo dia, que haviam realizado testes de lançamento de três mísseis de curto alcance, e o governo teria recolocado em funcionamento um reator nuclear que havia prometido desmontar como parte de um acordo de “ajuda-por-desarmamento” selado dois anos atrás, chamado de "negociações de seis lados", pois envolvia China, Rússia, Japão, EUA e as duas Coreias.


Os EUA e a aliada Coreia do Sul, por seu lado, colocaram suas forças militares em alerta vermelho e representantes estadunidenses pressionaram o Conselho de Segurança da ONU para que este impusesse novas sanções. A secretária de Estado estadunidense, Hillary Rodham Clinton, prometeu que a Coreia do Norte sofreria "consequências" pelo que ela chamou de "ações provocativas e truculentas".


Carnificina

A ideia de que a Coreia do Norte representa uma ameaça militar aos EUA é absurda. O país é desesperadamente pobre, com uma renda per capita de menos de dois dólares por dia. Seus militares estão anos distantes do desenvolvimento de um míssil de longo alcance que possa atingir os EUA, muito menos um dispositivo nuclear que possa ser carregado por tal míssil.


Mas, na península da Coreia, a ameaça de uma terrível carnificina é muito mais real. A Coreia do Norte possui aproximadamente 750 mísseis e 13 mil canhões apontados na direção da Coreia do Sul. Cerca de 21 milhões de pessoas vivem em Seul, que fica a apenas 63 quilômetros da fronteira com o Norte. E, é claro, as forças dos EUA e da Coreia do Sul possuem um arsenal muito mais destrutivo a seus comandos. Uma guerra poderia resultar na morte de um milhão de civis em questão de dias.


A retórica do governo militar da Coreia do Norte – e, talvez ainda mais, seus métodos de Estado policialesco para reprimir dissidentes – facilitam para que a mídia reduza seus líderes a loucos fanáticos. Mas, quando representantes daquele país afirmam que suas tentativas de desenvolver armas nucleares buscam desencorajar um ataque dos EUA, eles estão certos.


Quando o governo George W. Bush lançou sua "guerra ao terror" e invadiu o Afeganistão, a Coreia do Norte foi incluída no "eixo do mal", dentro da lista de possíveis alvos. "A guerra do Iraque ensinou a lição de que... a segurança de uma nação pode apenas ser alcançada quando o país possui uma força física com capacidade de retaliação", disse um representante norte-coreano algumas semanas após os EUA invadirem o Iraque, em março de 2003.


Ocupação e dominação

Por trás do conflito entre os EUA e a Coreia do Norte existe mais de um século de ocupação e dominação imperialista. Antes do século 20, governantes de China e Japão disputaram o controle da península da Coreia. Após derrotar a Rússia na guerra de 1905, o Japão transformou a Coreia em uma colônia, brutalmente explorada, com a ajuda de investidores estadunidenses.


Depois da derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, os EUA e a antiga União Soviética (URSS) – aliados durante a guerra – deram início à rivalidade da Guerra Fria, com a Coreia servindo como campo de batalha experimental. A península foi "temporariamente" dividida.


Forças comunistas no Norte, apoiadas pela URSS, lançaram uma ofensiva com o objetivo de reunir a Coreia em 1950. Os EUA responderam com uma matança indiscriminada. Com a autoridade da ONU como disfarce, bombardearam com napalm cada cidade do Norte, reduzindo-as a ruínas.


Quatro anos de guerra terminaram em um impasse, com o custo de três milhões de mortos. A antiga linha divisória foi reconfirmada em um tratado de armistício em 1953. Após a guerra, a Coreia do Sul foi governada por militares apoiados pelos EUA. Mais de três décadas de ditadura depois, esse sistema ruiu diante de um movimento democrático maciço alimentado por conflitos trabalhistas.


A Coreia do Norte adotou o sistema repressivo stalinista de seus patrocinadores na Rússia e na China. Embora seus líderes ainda reivindiquem serem um governo "comunista", a Coreia do Norte é o oposto de uma sociedade socialista de poder trabalhista e democrático. O aparato estatal dirige a economia e a sociedade com punho de ferro e o regime promove o culto à personalidade, primeiramente com Kim Il-sung, e, agora, com seu filho, Kim Jong-il.


Mas, se a Coreia do Norte tem sido sempre altamente militarizada, ela também enfrentou meio século de ameaça dos EUA e seus dependentes no Sul. Os EUA introduziram armas nucleares na península no final dos anos de 1950, violando o armistício que dera fim à guerra. Também mantêm, ainda hoje, uma imensa força militar posicionada na Coreia do Sul e no Japão, como uma constante ameaça contra o Norte.


Plano de Clinton

A Coreia do Norte estava economicamente a frente da do Sul até meados dos anos 1970. Mas seu empobrecimento se intensificou depois do colapso da URSS, em 1991. Em meados dos anos 1990, o governo Bill Clinton alimentou tensões ao recomeçar jogos de guerra na península e redirecionar armas nucleares, antes apontadas à URSS, na direção da Coreia do Norte. De acordo com um representante da Coreia do Sul, os EUA tinham traçado planos para derrubar o governo do Norte e promover sua incorporação pelo Sul.


Em 1994, a Casa Branca de Clinton concordou com um acordo em que o governo norte-coreano prometia interromper seu programa de armas nucleares e os EUA suspenderiam seu embargo de negócios e crédito, além de ajudar com a criação de um programa de força nuclear civil, com o envio de combustível como uma medida paliativa para a produção de eletricidade.


Clintou quebrou todas essas promessas, com exceção do envio de combustível e algum alimento. A crise econômica aumentou. Grandes inundações durante os anos 1990 levaram à fome, que matou uma em cada dez pessoas no país. Em outras palavras, a despeito do acordo, o governo Clinton continuou a aumentar a pressão contra o regime na esperança que ele não resistisse.


Quando George W. Bush chegou ao poder, piorou ainda mais as coisas ao rejeitar novas negociações. As relações entre os dois países foi simbolizada pelas declarações racistas de Bush, qualificando Kim Jong-il como um "pigmeu".


Agora, a administração Obama está no controle e seus principais representantes de política externa não demonstram nenhum sinal de querer seguir um caminho diferente. Além disso, a embaixadora de Obama na ONU, Susan Rice, disse querer se assegurar de que a Coreia do Norte "pague um preço" por seus testes nucleares.


Nenhuma pessoa sã quer ver a disseminação de armas nucleares. Mas, quando se trata de corrida armamentista e ameaças de guerra no leste asiático, a força motriz é o governo dos EUA. Desarmamento real começaria pelos soldados e armas estadunidenses que têm estado apontadas para a Coreia do Norte por mais de meio século. (socialistworker.org)


*Alan Maass é editor do jornal Socialist Worker e autor de Why You Should Be a Socialist (Porque você deveria ser um socialista)

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