quinta-feira, 18 de junho de 2009

Tecnologia nuclear norte-coreana ameaça planos dos EUA para região


Reação aos testes nucleares escondem intenção do governo estadunidense de retomar a península coreana

Renato Godoy de Toledo

da Redação

Agência Brasil de Fato

Os recentes testes nucleares realizados pela Coreia do Norte podem representar perigo apenas aos planos dos EUA para a região. Desde a Guerra da Coreia (1950-53), a oposição estadunidense ao governo do Partido Comunista local é algo notório. À época, os Estados Unidos e seus aliados tentavam reunificar os coreanos do sul e do norte sob o jugo do capitalismo, fato que não ocorreu. Assim, a tentativa estadunidense em controlar a expansão do socialismo na região foi frustrada, configurando uma das maiores derrotas bélicas do país, ao lado do confronto que aconteceria anos depois no Vietnã.


Esclarecido este contexto, passam a fazer sentido as declarações do líder norte-coreano Kim Jong-Il que justifica os testes nucleares como reflexo de uma guerra que ainda não acabou.


O olhar dos EUA sobre a Coreia do Norte ficou mais intenso com o fim da União Soviética, que dava suporte ao governo comunista. Desde então, a tensão com os norte-coreanos tem sido uma constante. Durante raros momentos, houve uma tentativa de reaproximação com os EUA, bem como com o Sul. Em 2000, nos últimos meses da gestão do democrata Bill Clinton, sondava-se que o mandatário estadunidense faria uma visita à Coreia do Norte, após diálogos entre Washington e Pyongyang. Porém, recém-eleito mas ainda não empossado, George W. Bush criticou a aproximação e criou um empecilho político à visita, que acabou não acontecendo. Aliás, na gestão Bush a Coreia do Norte chegou a constar como parte do “Eixo do Mal”, ao lado de organizações extremistas como a Al Qaeda.


Nesse novo cenário de testes nucleares, o atual presidente dos EUA Barack Obama tem realizado uma concertação internacional a fim de condenar o experimento bélico norte-coreano. Tal esforço vem surtindo efeito. O maior exemplo disso é o fato de que até a China, tradicional aliada dos norte-coreanos, ter condenado a ação do país vizinho.


Membros da gestão Obama já defendem que a Coreia do Norte faça parte da lista de organizações e países que colaboram com o terrorismo, alegando uma suposta facilitação no contrabando de armas.


Legitimidade

A principal questão levantada após os experimentos atômicos é o porquê de alguns países terem seu arsenal nuclear como um direito adquirido e legitimado pelos organismos internacionais, enquanto outros são condenados.


O geógrafo da Universidade de São Paulo (USP), André Martin, ressalta a argumentação de Kim Jong-Il para se defender das acusações do Ocidente. “Para começar a tratar do assunto, é necessário analisar a resposta do líder norte-coreano. 'Já fizeram mais de 2 mil testes nucleares no mundo, esse é o primeiro da Coreia do Norte, os outros foram das potências'. É uma boa resposta para mostrar que a ação não é irracional, desmedida”, analisa.


Para o jornalista espanhol Rafael Poch-de-Feliu, do La Vanguardia, especialista em assuntos militares, o rechaço do Ocidente aos testes norte-coreanos parte de uma premissa preconceituosa. “Por que Paquistão e Índia podem, mas a Coreia não? Por que Israel pode ter bombas atômicas – umas 200 – e o Irã não pode ambicioná-las? O tema da proliferação nuclear é muito sério e preocupante, mas o problema não começa na Coreia do Norte ou no Irã, mas sim nas 12 mil ogivas nucleares, dos EUA e da Rússia, capazes de destruir seis vezes o planeta”, compara.


De acordo com André Martin, a Coreia do Norte tem um objetivo claro, ser a protagonista da reunificação do país. “O objetivo estratégico é a unificação com o Sul, mas com parâmetros que ela possa ditar ou barganhar. A saída dos EUA do Sul é uma questão prévia para a reunificação da nação. A pergunta que tem que ser feita é: o fato de a Coreia do Norte possuir armas nucleares favorece a reunificação?”, questiona.


Acordos

Outro aspecto que não vem sendo abordado é o fato de os EUA não terem cumprido um acordo com a Coreia do Norte, que em troca do cessamento do seu projeto nuclear, receberia ajudas financeiras e materiais, com recursos do petróleo estadunidense, a fim de combater a pobreza no país.


Para o escritor e ativista canadense Steve Gowans, o país asiático fez uma leitura acertada sobre a única intenção dos EUA nos acordos. “Enquanto a Coreia do Norte desmantelou suas instalações nucleares e realizou uma declaração completa sobre seu programa nuclear, conforme fora acordado, os EUA não cumpriram sua parte, com a transferência de recursos oriundos do petróleo e recusou-se a normalizar as relações com a Coreia do Norte, como havia prometido. Então, a Coreia do Norte concluiu corretamente, na minha opinião, que os EUA não tinham nenhum interesse real em chegar num acordo e estavam apenas interessados em fazer o país desistir de seu arsenal nuclear dissuasivo”, afirma Gowans, que é especialista nas relações entre EUA e Coreia do Norte.


O jornalista espanhol Rafael Poch-de-Feliu salienta que os norte-coreanos são duros nas negociações, mas não têm sido os principais agentes a emperrar um entendimento. “Os termos do acordo que pedem os norte-coreanos (desde os anos 90) são a desnuclearização em troca de normalização de relações (desmilitarização, estabelecimento de relações diplomáticas e comerciais normais, fim do bloqueio comercial e político etc.). É verdade que os norte-coreanos são muito duros como negociadores, mas me parece que se for concedido o que eles pedem, não haveria problema”, avalia. (Leia mais na edição 328 do Brasil de Fato, disponível nas bancas)

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