quarta-feira, 21 de maio de 2008

Autofagia capitalista começa pelas bordas


Recebi por e-mail o artigo do Gilberto Souza, editor chefe do Jornal Correio do Brasil, lá do Rio de Janeiro. Me surpreendi com o esse texto vindo de um editor de um jornal brasileiro. Não que eu tenha algum preconceito, mas conheço muito bem a pauta que seguem os editores da maioria dos jornais. Destoam explícitamente do que está sendo comentado no texto em questão.

Acho interessante reproduzi-lo aqui e assim fazermos uma reflexão de como nosso comportamento vai se engessando conforme os interesses capitalistas nos vai conduzindo. Sem que com isso percebamos os caminhos que vamos percorrendo.
Confira abaixo;


No capitalismo, população de rua é o fim da cadeia alimentar

O drama da população que mora nas ruas das principais capitais e grandes cidades brasileiras nos apresenta um país degradado. O Brasil das trevas. Câmeras dispostas no prédio do Ministério Público, no Centro do Rio, flagram miseráveis matando miserável a porrete. A poucos quilômetros dali, debaixo de um viaduto, menino ateia fogo em meninos e meninas com espuma encharcada em gasolina. Uma delas, grávida, morre carbonizada. Barbárie.

As metrópoles desta nação, qual organismos vivos e autofágicos, degradam-se na medida direta em que as contas bancárias do capitalismo especulativo engordam, mundo afora. A globalização - essa estranheza que hoje nos permite saber a velocidade com que o bater de asas da borboleta, no Japão, transformar-se-á no furacão extra tropical que varre Santa Catarina - também apresenta uma face sombria, alucinada. A crueldade do ser humano, resquício genético das savanas, adormece apenas quando o estômago está forrado, a cama pronta e a cabeça feita. Sem uma dessas três prerrogativas, ou sem todas elas, que é o caso desses desvalidos, cenas de absoluto descaso com a vida, como a estas que assistimos no cotidiano, serão uma realidade mais cruel e estúpida do que imaginou Dante, a caminho do Inferno.

Durante séculos e, mais recentemente, por décadas de arrogância militarista e corrupção desvairada, espraiadas no último governo liberal, de FHC, construiu-se nesse país a idéia de que haveria uma classe dominante e outra, de dominados. E a meta dos dominados deveria ser a de chegar ao estágio dos dominantes. Estes, igual àquela brincadeira da gata-parida, lutam com unhas e dentes para manter o status quo, custe o que custar, salve-se quem puder. Sim, porque no time dominante a escassez é uma exceção, enquanto aos dominados é a regra. Gerir esse processo se convencionou chamar de "mercado". Manter esse rodízio é a tarefa do próprio sistema.

Ocorre, no entanto, que os recursos são finitos. As commodities, como o tal "mercado" apelidou o milho, o feijão, a farinha e o combustível, entre outros bens necessários à vida no mundo, não bastam para todos, segundo o conceito de quem dominou as civilizações até hoje. O resultado são esses miseráveis que, famintos, sem um teto e entorpecidos com benzina ou outra droga qualquer, matam, roubam, estupram, incendeiam, rastejam sob os viadutos, se escondem, morrem.

Fica mais fácil reconhecer a perversidade do mundo em que vivemos quando um tal de João que, por não se saber o sobrenome dele se convencionou chamar de Brasil, matou um tal de Toquinho que dormia sob uns farrapos na calçada. Chega a ser cristalina a injustiça que se pratica no dia-a-dia, na forma de ver o mundo, de compactuar com o sistema, quando uma Flávia Souza, de 15 anos, grávida de um mês, e Wellington Alves, de 16 anos, são queimados vivos.

No momento em que a Organização das Nações Unidas, em um comunicado oficial, dirige-se ás nações dominantes e dizem para eles que não é possível manter os subsídios aos seus agricultores, sob pena de meio mundo morrer de fome, é um sinal de que a casa começou a cair. É o primeiro estalo. Outros já são ouvidos quando o presidente brasileiro fala que é "sacanagem" essa investida contra o programa de autosustentabilidade energética do país, uma das poucas coisas boas já vistas na direção certa de se salvar esse planeta da extinção, por enquanto. Os governantes desses povos ainda não perceberam que os anéis se foram há muito tempo. Agora, o risco é de perderem os dedos.

O poder béligerante que usurpa o petróleo do Iraque, em uma guerra de mentiras, é o mesmo que arrebenta a cabeça do pobre coitado numa rua carioca. São fatos interligados pela trama do imperialismo e da ambição. Ainda não perceberam, esses que vivem aí amealhando muito mais do que precisam para viver, que acumulam fortunas absurdas e latifúndios inimagináveis, que a cidadania - hoje traduzida no exercício do direito a três refeições por dia - é um fato irreversível. A África, o Brasil, a América Latina, com a rara exceção da Colômbia, a, Rússia, a China e a Índia, entre outros cantos do mundo, descobriram que essa história de dominantes e dominados é conversa fiada.

Nem todas as bombas do sr. George W. Bush ou os seus cães adestrados vão impedir que o restante do planeta coma três vezes, de sol a sol, e, mais saudável, construa um teto sobre suas cabeças, agora feitas não com as drogas, que levam miseráveis a matar miseráveis, mas com idéias, cultura e educação.


Link do texto;

http://www.correiodobrasil.com.br/noticia.asp?c=138427

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